3. A FÉ HUMANA.
Entre as coisas que
sabemos de modo incerto, com maior ou menor probabilidade de acerto, vamos
distinguir agora:
a) as coisas que sabemos por nós mesmos;
b) e as coisas que sabemos por outro.
As primeiras, de
que já falamos no tópico anterior, são aquelas que, para chegarem à certeza,
terão de chegar à evidência racional ou à evidência empírica dos sentidos.
Mesmo nessas aquisições diretas, em que é nosso olhar ou nossa própria
inteligência que vê, pode haver interposição de outras pessoas. No caso
anterior vimos que o médico não tem certeza metafísica da relação entre a
radiografia e a doente. Há ainda outro caso de interposição de pessoa, que não
diminui a apropriação da certeza: é o caso do que sabemos porque o
professor nos ensinou. Este caso precisa ser cuidadosamente examinado e divido
em dois:
a) sei isto porque o professor me ensinou,
e não tenho nenhum meio de ver por mim mesmo se isto é verdade ou não; neste
caso o “porque o professor me ensinou” é o próprio critério de meu saber;
b) sei que a soma dos ângulos do triângulo
(na geometria de postulados euclidianos) é igual a dois retos porque o
professor me ensinou. Neste caso o “porque o professor me ensinou” só
tem caráter de circunstância: ainda que dificilmente pudéssemos aprender a
matemática inteira sem o professor, o critério da ciência reside na visão clara
que tenho da demonstração. No momento em que vi, em que compreendi, o professor
desapareceu e eu estou diante da verdade que se tornou minha própria verdade.
O segundo caso
recai no que já dissemos no tópico anterior: mas o primeiro nos leva a
considerar um caso muito importante e extremamente difundido de ciência: o que
repousa na autoridade, na confiança que em outro depositamos. Chamemo-lo de fé
humana. Tudo o que sabemos, sabemo-lo primeiro por fé humana; poucas
são as coisas que sabemos por nós mesmos, e dessas, poucas são as que sabemos
com certeza, e pouquíssimas as que sabemos com certeza e perfeição.
A fé humana
é o menor dos critérios do saber científico; o argumento de autoridade, com já
dizia Santo Tomás, é o mais fraco dos argumentos. O estudioso ganha maturidade
de espírito à medida que passa da fé humana para o conhecimento próprio.
Pode-se, entretanto, acrescentar que só crescerá normalmente o espírito que
soube esperar a hora conveniente de ver com seus próprios olhos. A situação
ideal entre o professor e o aluno é aquela em que o professor tem empenho de
liberar o aluno e vê-lo nadar sozinho, e em que o aluno tem o maior empenho de
aproveitar o tempo de receber e de ouvir. Será preciso assinalar que o drama de
nosso tempo produz exatamente o contrário? Há professores (demais) cujo sonho
ardente é o de teleguiar multidões de jovens; e há jovens (demais) que aos
dezoito anos já sabem tudo, e paradoxalmente (e sem saber o que fazem) se
deixam guiar como autômatos.
A fé humana está
exilada no domínio das ciências; mas está em sua terra natal na vida social e
na convivência política. Por mais que a amarga experiência nos prove que os
homens mentem e atraiçoam, não há possibilidade de estruturar um corpo político
na base da pura desconfiança. Ponderem bem e considerem a imensa área de coisas
que sabemos, e que utilizamos, porque outros nos disseram. Obedecemos ao médico
por fé humana; casamo-nos por fé humana; marcamos encontros; fundamos
instituições, debruçamos sobre as crianças por fé humana (e no caso também pela
certeza que temos de que devemos praticar o bem e evitar o mal); votamos por fé
humana; sabemos que existe o Vietnam por fé humana; e assim por diante.
O mecanismo
psicológico da fé humana é complexo e variado: compõe-se de um ato de
inteligência (um assentimento) com critério em um ato por sua vez composto de
inteligência e vontade (a confiança no outro). Essa confiança no outro (pai,
professor, autor, informante, etc.) não é cega nem incondicional; ela nasce do
que sabemos dele, do que nos parece ele digno de crédito. O bom funcionamento
da fé humana depende essencialmente do bom discernimento que nos leva a ouvir a
pessoa que merece ser ouvida; o mau funcionamento, que constitui a impostura
generalizada das épocas de crise é produzido pelas correntes de difamação e
pelas outras de falsa glorificação. Nos tempos modernos a febre publicitária, e
o seu mercantilismo, tornam quase impraticáveis as instituições sociais e
políticas que dependem da fé humana. O exercício da autoridade se enfraquece e
é substituído pela demagogia inculcadora de mentiras.
Nossa vida
religiosa não consiste em atos de fé humana, e até se pode dizer que somos
muito exigentes nessa matéria, mas não deixa de sofrer grandes aflições quando
sentimos abalados os vínculos normais de estima e respeito, e, sobretudo quando
vemos funcionar mal a camada social de onde esperávamos as melhores lições.
4. A FÉ DIVINA
Depois de todas
essa considerações voltamos ao CREIO que está no eixo de todos os artigos de
fé. Trata-se de um assentimento parecido com o de fé humana: “creio” nisto,
naquilo, etc., porque um Outro me disse...”. Temos aí a combinação do mais
pobre dos critérios de certeza (o da autoridade), e a mais rica e alta das
fianças (a do próprio Deus). Destarte, aquele assentimento em confiança que, no
caso de tratar-se de homem para homem, freqüentemente revela seu fundo de
miséria, está aqui transfigurado, por tratar-se de uma comunicação de Deus para
o homem, mas assim mesmo conserva, da parte do homem, seu aspecto de miséria. Apesar
do infinito valor da Autoridade, o ato de fé é sempre para nós obscuro e
enigmático: “Vemos agora em sinais e enigmas”.
Mas agora cabe aqui
a pergunta: como sabemos que isto nos foi dito por Deus? Ou então: como sabemos
que a Revelação é de origem divina? Se fomos nós mesmos, ou os papas, ou
os apóstolos que discerniram o divino na Revelação, então fomos nós que
julgamos e que decidimos aceitar a Autoridade reveladora, e, portanto, será
ainda humano (e, portanto enganador por falta da evidência) o principal do ato
de fé divina.
Completa-se o
processo do ato de fé divina com o princípio interno que nos vem do próprio
Deus, que nos dá a sua Revelação e que nos capacita, no interior da alma, nas
profundidades, nas raízes de nossas faculdades espirituais, para aderirmos de
toda a alma, de todo o coração e de todo o entendimento, às verdades reveladas.
Representando a inteligência humana por um olho, e lembrando que toda a
comunicação divina nos veio por seu Verbo, poderíamos traçar este esquema de
nosso ato de Fé:
Esta “nova pupila”
que nos permite discernir e ver o divino é a virtude teologal infusa da
Fé divina.
Deus nos atende
assim de dois modos: dá-nos a notícia externa de seus mistérios, e dá-nos a
possibilidade interna de nivelarmos nossa inteligência para tal objeto. Mais
adiante veremos melhor a riqueza interior que nos vem dos dons divinos. Desde
já convém fixarmos, numa primeira aproximação, a seguinte noção: o que Deus dá
à alma humana que aceita seus misteriosos convites (“Levanta-te minha amiga,
minha bela, e vem!”. Ct. 2, 10) é uma qualidade divina, uma marca que
excede nossa natureza, que é sobrenatural. Essa marca ou qualidade
habitual se chama graça santificante. Além dessa forma nova e habitual,
Deus dá, para todos os atos sobrenaturais, uma força, moção, chamada graça
atual. Desse organismo sobrenatural resultam as virtudes e os dons. As
virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade. Todas elas estão
voltadas para Deus e para o convívio a Ele nos chama.
A Fé tem por objeto as verdades
reveladas.
A Esperança tem por objeto as
promessas de vida Eterna.
A Caridade tem por objeto Deus mesmo
e seu Amor.
Voltemos à
composição de nosso ato de Fé sobrenatural e observemos que Deus não revela os
seus mistérios a cada um de nós, pessoalmente. A Revelação que se formou
gradativamente no Antigo Testamento e que se consumou com a obra de Cristo e se
encerrou na morte do último apóstolo é um patrimônio do Povo de Deus. Os
primeiros apóstolos tiveram a noção exata de serem uma hierarquia portadora de
um Sagrado Depósito doutrinal. À medida que a Igreja se organiza com suas
sucessivas vitórias sobre as heresias dos primeiros séculos, vê-se crescer a
consciência de um Magistério portador das jóias da divina revelação. E
gradativamente o Povo de Deus aprendeu a dizer assim:
CREIO nisto, nisto
e naquilo PORQUE DEUS REVELOU,
e porque a Santa
Madre Igreja ensina.
Analisemos este
enunciado. A parte constituída pelos vários artigos de Fé (isto, isto, aquilo,
etc.) é, digamos assim (usando o hilemorfismo aristotélico) a matéria de nossa
Fé. O “PORQUE DEUS ENSINOU” é a razão formal de nossa Fé. O “porque a Igreja
ensina” é o circunstancial, mas um circunstancial sine qua non. DEUS
quis que a Igreja que instituiu fosse o instrumento de nossa salvação, e
instrumento sine qua non. Mas não é a Igreja que nos salva, é
Deus; nem é a Igreja que nos revela, é Deus.
E porque terá Deus
estabelecido assim o plano de nossa salvação? Não podemos penetrar os desígnios
de Deus, mas podemos procurar certas razões que entre si vinculem e harmonizem
as verdades da Fé. Podemos dizer que Deus afeiçoou seu plano por nossa
natureza, que melhor do que nós Ele conhece. E assim concebeu o plano de nossa
redenção em torno do Verbo Encarnado, em que o próprio Deus assume nossa
natureza.
No ato de Fé, e na
posição instrumental da Igreja, há uma consideração parecida com o ato de
conhecimento da razão natural. A inteligência se serve dos sentidos, como de
seu instrumento: nada está na inteligência que não tenha passado pelos
sentidos; mas não são os sentidos que conhecem as notas inteligíveis das
coisas, é a inteligência.
Fonte: Permanência
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