sábado, 23 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO I - EU CREIO²



3. A FÉ HUMANA.
 
Entre as coisas que sabemos de modo incerto, com maior ou menor probabilidade de acerto, vamos distinguir agora:
 
a) as coisas que sabemos por nós mesmos;
b) e as coisas que sabemos por outro.
 
As primeiras, de que já falamos no tópico anterior, são aquelas que, para chegarem à certeza, terão de chegar à evidência racional ou à evidência empírica dos sentidos. Mesmo nessas aquisições diretas, em que é nosso olhar ou nossa própria inteligência que vê, pode haver interposição de outras pessoas. No caso anterior vimos que o médico não tem certeza metafísica da relação entre a radiografia e a doente. Há ainda outro caso de interposição de pessoa, que não diminui a apropriação da certeza: é o caso do que sabemos porque o professor nos ensinou. Este caso precisa ser cuidadosamente examinado e divido em dois:
 
a) sei isto porque o professor me ensinou, e não tenho nenhum meio de ver por mim mesmo se isto é verdade ou não; neste caso o “porque o professor me ensinou” é o próprio critério de meu saber;
 
b) sei que a soma dos ângulos do triângulo (na geometria de postulados euclidianos) é igual a dois retos porque o professor me ensinou. Neste caso o “porque o professor me ensinou” só tem caráter de circunstância: ainda que dificilmente pudéssemos aprender a matemática inteira sem o professor, o critério da ciência reside na visão clara que tenho da demonstração. No momento em que vi, em que compreendi, o professor desapareceu e eu estou diante da verdade que se tornou minha própria verdade.
 
O segundo caso recai no que já dissemos no tópico anterior: mas o primeiro nos leva a considerar um caso muito importante e extremamente difundido de ciência: o que repousa na autoridade, na confiança que em outro depositamos. Chamemo-lo de fé humana. Tudo o que sabemos, sabemo-lo primeiro por fé humana; poucas são as coisas que sabemos por nós mesmos, e dessas, poucas são as que sabemos com certeza, e pouquíssimas as que sabemos com certeza e perfeição.
 
A fé humana é o menor dos critérios do saber científico; o argumento de autoridade, com já dizia Santo Tomás, é o mais fraco dos argumentos. O estudioso ganha maturidade de espírito à medida que passa da fé humana para o conhecimento próprio. Pode-se, entretanto, acrescentar que só crescerá normalmente o espírito que soube esperar a hora conveniente de ver com seus próprios olhos. A situação ideal entre o professor e o aluno é aquela em que o professor tem empenho de liberar o aluno e vê-lo nadar sozinho, e em que o aluno tem o maior empenho de aproveitar o tempo de receber e de ouvir. Será preciso assinalar que o drama de nosso tempo produz exatamente o contrário? Há professores (demais) cujo sonho ardente é o de teleguiar multidões de jovens; e há jovens (demais) que aos dezoito anos já sabem tudo, e paradoxalmente (e sem saber o que fazem) se deixam guiar como autômatos.
 
A fé humana está exilada no domínio das ciências; mas está em sua terra natal na vida social e na convivência política. Por mais que a amarga experiência nos prove que os homens mentem e atraiçoam, não há possibilidade de estruturar um corpo político na base da pura desconfiança. Ponderem bem e considerem a imensa área de coisas que sabemos, e que utilizamos, porque outros nos disseram. Obedecemos ao médico por fé humana; casamo-nos por fé humana; marcamos encontros; fundamos instituições, debruçamos sobre as crianças por fé humana (e no caso também pela certeza que temos de que devemos praticar o bem e evitar o mal); votamos por fé humana; sabemos que existe o Vietnam por fé humana; e assim por diante.
 
O mecanismo psicológico da fé humana é complexo e variado: compõe-se de um ato de inteligência (um assentimento) com critério em um ato por sua vez composto de inteligência e vontade (a confiança no outro). Essa confiança no outro (pai, professor, autor, informante, etc.) não é cega nem incondicional; ela nasce do que sabemos dele, do que nos parece ele digno de crédito. O bom funcionamento da fé humana depende essencialmente do bom discernimento que nos leva a ouvir a pessoa que merece ser ouvida; o mau funcionamento, que constitui a impostura generalizada das épocas de crise é produzido pelas correntes de difamação e pelas outras de falsa glorificação. Nos tempos modernos a febre publicitária, e o seu mercantilismo, tornam quase impraticáveis as instituições sociais e políticas que dependem da fé humana. O exercício da autoridade se enfraquece e é substituído pela demagogia inculcadora de mentiras.
 
Nossa vida religiosa não consiste em atos de fé humana, e até se pode dizer que somos muito exigentes nessa matéria, mas não deixa de sofrer grandes aflições quando sentimos abalados os vínculos normais de estima e respeito, e, sobretudo quando vemos funcionar mal a camada social de onde esperávamos as melhores lições.

4. A FÉ DIVINA
 
Depois de todas essa considerações voltamos ao CREIO que está no eixo de todos os artigos de fé. Trata-se de um assentimento parecido com o de fé humana: “creio” nisto, naquilo, etc., porque um Outro me disse...”. Temos aí a combinação do mais pobre dos critérios de certeza (o da autoridade), e a mais rica e alta das fianças (a do próprio Deus). Destarte, aquele assentimento em confiança que, no caso de tratar-se de homem para homem, freqüentemente revela seu fundo de miséria, está aqui transfigurado, por tratar-se de uma comunicação de Deus para o homem, mas assim mesmo conserva, da parte do homem, seu aspecto de miséria. Apesar do infinito valor da Autoridade, o ato de fé é sempre para nós obscuro e enigmático: “Vemos agora em sinais e enigmas”.
 
Mas agora cabe aqui a pergunta: como sabemos que isto nos foi dito por Deus? Ou então: como sabemos que a Revelação é de origem divina? Se fomos nós mesmos, ou os papas, ou os apóstolos que discerniram o divino na Revelação, então fomos nós que julgamos e que decidimos aceitar a Autoridade reveladora, e, portanto, será ainda humano (e, portanto enganador por falta da evidência) o principal do ato de fé divina.
 
Completa-se o processo do ato de fé divina com o princípio interno que nos vem do próprio Deus, que nos dá a sua Revelação e que nos capacita, no interior da alma, nas profundidades, nas raízes de nossas faculdades espirituais, para aderirmos de toda a alma, de todo o coração e de todo o entendimento, às verdades reveladas. Representando a inteligência humana por um olho, e lembrando que toda a comunicação divina nos veio por seu Verbo, poderíamos traçar este esquema de nosso ato de Fé:
 

Esta “nova pupila” que nos permite discernir e ver o divino é a virtude teologal infusa da Fé divina.
 
Deus nos atende assim de dois modos: dá-nos a notícia externa de seus mistérios, e dá-nos a possibilidade interna de nivelarmos nossa inteligência para tal objeto. Mais adiante veremos melhor a riqueza interior que nos vem dos dons divinos. Desde já convém fixarmos, numa primeira aproximação, a seguinte noção: o que Deus dá à alma humana que aceita seus misteriosos convites (“Levanta-te minha amiga, minha bela, e vem!”. Ct. 2, 10) é uma qualidade divina, uma marca que excede nossa natureza, que é sobrenatural. Essa marca ou qualidade habitual se chama graça santificante. Além dessa forma nova e habitual, Deus dá, para todos os atos sobrenaturais, uma força, moção, chamada graça atual. Desse organismo sobrenatural resultam as virtudes e os dons. As virtudes teologais são a Fé, a Esperança e a Caridade. Todas elas estão voltadas para Deus e para o convívio a Ele nos chama.
 
A tem por objeto as verdades reveladas.
 
A Esperança tem por objeto as promessas de vida Eterna.
 
A Caridade tem por objeto Deus mesmo e seu Amor.
 
Voltemos à composição de nosso ato de Fé sobrenatural e observemos que Deus não revela os seus mistérios a cada um de nós, pessoalmente. A Revelação que se formou gradativamente no Antigo Testamento e que se consumou com a obra de Cristo e se encerrou na morte do último apóstolo é um patrimônio do Povo de Deus. Os primeiros apóstolos tiveram a noção exata de serem uma hierarquia portadora de um Sagrado Depósito doutrinal. À medida que a Igreja se organiza com suas sucessivas vitórias sobre as heresias dos primeiros séculos, vê-se crescer a consciência de um Magistério portador das jóias da divina revelação. E gradativamente o Povo de Deus aprendeu a dizer assim:
 
CREIO nisto, nisto e naquilo PORQUE DEUS REVELOU,
e porque a Santa Madre Igreja ensina.
 
Analisemos este enunciado. A parte constituída pelos vários artigos de Fé (isto, isto, aquilo, etc.) é, digamos assim (usando o hilemorfismo aristotélico) a matéria de nossa Fé. O “PORQUE DEUS ENSINOU” é a razão formal de nossa Fé. O “porque a Igreja ensina” é o circunstancial, mas um circunstancial sine qua non. DEUS quis que a Igreja que instituiu fosse o instrumento de nossa salvação, e instrumento sine qua non. Mas não é a Igreja que nos salva, é Deus; nem é a Igreja que nos revela, é Deus.
 
E porque terá Deus estabelecido assim o plano de nossa salvação? Não podemos penetrar os desígnios de Deus, mas podemos procurar certas razões que entre si vinculem e harmonizem as verdades da Fé. Podemos dizer que Deus afeiçoou seu plano por nossa natureza, que melhor do que nós Ele conhece. E assim concebeu o plano de nossa redenção em torno do Verbo Encarnado, em que o próprio Deus assume nossa natureza.
 
No ato de Fé, e na posição instrumental da Igreja, há uma consideração parecida com o ato de conhecimento da razão natural. A inteligência se serve dos sentidos, como de seu instrumento: nada está na inteligência que não tenha passado pelos sentidos; mas não são os sentidos que conhecem as notas inteligíveis das coisas, é a inteligência.
 
Tornemos a dizer: a razão formal de nosso CREIO é a procedência divina, e nesta razão formal, neste essencial de fé, como ensina Santo Tomás de Aquino, não entra nada de criado, nem a Igreja, nem os apóstolos, nem os anjos, nada a não ser DEUS: “nihil aliud quam Veritas Prima”.

Fonte: Permanência

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