CREIO...
1. A PALAVRA CHAVE
Antes de
analisarmos sucessivamente os vários artigos do Símbolo dos Apóstolos
precisamos compreender bem a importância e o sentido exato da primeira palavra,
que está para o conjunto dos artigos como a clave para a partitura musical.
Mas a palavra em
questão, “creio”, tem aqui uma especial ressonância, um especial sentido que
difere do que lhe é habitualmente atribuído. Nos textos comuns quando digo
“creio” quero dizer que sei alguma coisa de um modo que inclui uma margem de
dúvida. Crer, nesse sentido comum e natural, é um saber impreciso, anterior à
certeza.
O humano saber tem
vários matizes, vários graus de imperfeição antes de atingir a certeza clara em
que repousa o assentimento perfeito. O termo “creio” é usado sempre para
designar um assentimento com temor de erro, uma esperança, uma suposição, e
nunca uma certeza. Quase diríamos que o termo designa uma incerteza e uma
inquietação, e, portanto um estado de espírito que se presta pouco a um ato de
fé. E por aí se concluiria que o termo chave de nossa fé deve ter aí, no
Símbolo dos Apóstolos um sentido oposto ao que tem na linguagem comum. E isto é
verdade, porque não podemos admitir a idéia de uma margem de dúvida num ato de
fé. Por que então usar a palavra que habitualmente significa o oposto do que
queremos aqui significar? Porque na verdade o “creio” da fé sobrenatural tem
certa semelhança com o “creio” da linguagem comum. Se não podemos admitir um
ato de fé com margem de dúvida podemos, entretanto, admitir um ato de fé com
alguma imperfeição, alguma obscuridade de nossa parte. Deus diz, não duvidamos,
mas vemos mal. “Por enquanto vemos só em sinais e enigmas”.
Para entendermos
melhor as dessemelhanças e as semelhanças que existem entre o “creio” da
linguagem comum e o “creio” da fé, temos de abrir um tópico para considerações
um pouco mais extensas sobre os itinerários da razão humana em busca das
certezas.
2. CERTEZAS E
INCERTEZAS
Todos nós nos
guiamos na vida por certas coisas que sabemos com certeza, e outras que
sabemos com graus diversos de incerteza. Os filósofos nos ensinam que o
critério supremo da certeza é a evidência com que uma determinada verdade se
impõe aos nossos sentimentos ou à nossa inteligência. Os céticos dirão que esse
critério é falso e que na verdade somos todos enganados e nos movemos entre
sombras. Esse exagero do ceticismo vem do fato incontestável de serem obscuros
e imperfeitos os nossos conhecimentos; mas o conhecimento pode ser certo e
imperfeito. Tomemos um exemplo sensível: “eu conheço o professor Francisco e
sei, com certeza, que ele está sentado diante de mim”. Este conhecimento
sensível, no caso visual, é certo, mas não é perfeito porque não sei tudo nem
vejo tudo da referida pessoa. Tomemos um exemplo científico: “os metais são
condutores de eletricidade” ou “o calor dilata os corpos”. Essas proposições
também são certas, mas também não são perfeitas porque não sabemos tudo a
respeito desses fenômenos. As certezas mais perfeitas que possuímos são aquelas
que envolvem princípios universais: “tudo o que age, age por uma causa”, “o
todo é maior do que as partes”, “duas quantidades iguais a uma terceira são
iguais entre si”. Essas mais perfeitas certezas que possuímos são a certeza
metafísica e a certeza matemática. Essas certezas podem ser
espontâneas, ou axiomáticas, e desde logo evidentes; ou demonstradas por um
raciocínio perfeito e tornadas evidentes na conclusão. À primeira espécie
pertencem os chamados axiomas, e à segunda os teoremas como este: “a soma dos
ângulos internos do triângulo (na geometria de postulados euclidianos) é igual
a dois retos”. A certeza matemática é mais perfeita do que a metafísica porque
esgota todas as significações envolvidas; a certeza metafísica é mais perfeita
em razão de seu objeto e no plano mais alto e mais rico em que se estabelece.
Abaixo de ambas está a certeza física que nos vem da intuição dos sentidos, a
que nos referimos atrás.
Sistematizemos:
CERTEZA METAFÍSICA, inicial ou terminal.
CERTEZA MATEMÁTICA, inicial ou terminal.
CERTEZA FÍSICA, direta e intuitiva.
Abaixo desta temos
as certezas científicas (física, química, biológica, etc.) que só são certezas
pela verificação experimental, ou pela indução dos casos observados. Tomemos
para exemplo um fenômeno universalmente admirado pela certeza com é previsto;
um eclipse. Será correto dizer que os eclipses são determinados com precisão
matemática? Não. Com precisão matemática só podemos enunciar as realidades
imateriais das formas matemáticas. Posso dizer que a tangente de um círculo é
perpendicular ao raio que passa pelo ponto de tangência. Esta proposição tem um
rigor matemático. Se agora tomássemos um compasso, construíssemos um círculo
(agora físico), e com a régua traçássemos a tangente e o raio, poderia
acontecer que os dois ângulos formados sejam 89° 59’ e 90° 01’ ou 89°59’59” e
90°00’01”. Se eu trabalhasse com extremo rigor físico conseguiria erro cada vez
menor, precisão cada vez maior, mas jamais alcançaria a absoluta precisão matemática.
A física, por causa
da matéria envolvida em seus fenômenos, só é conhecida em grau aproximado. E
quanto maior for a densidade de dados, maior será a imprecisão, ou a
dificuldade de precisão. O prestígio que cerca os eclipses vem do simples fato
de se tratar de um fenômeno muito isolado e muito isento de perturbações. O
sistema planetário que habitamos fica a distância prodigiosa dos outros
sistemas que possivelmente existam, e por isso é extremamente pequena a
probabilidade de uma interferência de corpo estranho que venha perturbar a
regularidade de nosso relógio planetário. Mas essa interferência não é
impossível; o eclipse previsto para o ano de 3000 poderá não se realizar, ou se
realizar atrasado ou adiantado. E por aí se vê que a certeza astronômica não
tem o rigor e o absoluto das certezas metafísicas e matemáticas.
À medida que se
adensa o teor material, e à medida que o fenômeno se torna mais complexo, mais
incerta se torna a ciência. Tomemos como exemplo agora a atitude do médico diante
de um doente que sente tais e tais coisas. Inicialmente, ao entrar no quarto do
doente o médico está na estaca zero, mas sua ignorância não é igual a dos
leigos na matéria que cercam o doente: ele dispõe de uma ciência da normalidade
do organismo humano graças à qual poderá iniciar a procura, a saída da pura ignorância.
O segundo passo, proporcionado pelo quadro de sintomas bem explorado, é o de
uma dúvida entre este ou aquele diagnóstico. No terceiro passo há a forte suspeita,
isto é, a nítida preferência para um dos termos da dúvida: diríamos que está na
pista da certeza. Poderá chegar até a convicção de que está diante de tal ou
qual doença bem determinada. Mas esse diagnóstico ainda não tem por si a
evidência, e, portanto ainda não é uma certeza absoluta. Será a opinião, será
uma hipótese de trabalho que se confirmará ou não na continuação do tratamento.
Em muitos casos o médico poderá pedir exames que quase lhe permitam o
pronunciamento categórico sem temor de erro. Uma radiografia, por
exemplo, pode evidenciar a presença de um corpo estranho em algum órgão,
a biopse e o exame microscópico poderão evidenciar o mau caráter do
tumor. Estará diante da certeza absoluta? Os puristas poderiam objetar: ainda
não, porque o médico não tem certeza física nem metafísica de que os exames em
questão pertencem efetivamente ao caso particular que examina. Ele não fez os
exames pessoalmente, ele não acompanhou a revelação da chapa, etc., etc. Em
termos rigorosos diríamos que todo esse conjunto de confianças tácitas e
informuladas, forma o que chamamos certeza moral.
Essa certeza moral,
ou de segunda mão, está em todos os atos e decisões de nossa vida, ocupam uma
área imensa de nossa ciência das coisas e dos homens. Mais adiante voltaremos a
esse problema. Agora, voltando ao caso do médico, imaginemos um diagnóstico de
câncer, com a certeza quase absoluta que muitas vezes chamamos simplesmente de
certeza, que está diante de um câncer. Perguntem-lhe agora qual é a causa do
câncer, e qual é sua terapêutica: o médico mostrará logo a situação de dúvida
em que se acha o problema, longe da suspeita e da opinião.
Fonte: Permanência
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