Conforme Giordani (2008), muitas eram as classes sociais no antigo
Egito, desde as classes dominantes até as dominadas. Entre estas últimas
os escravos. Para Giordani (2008), o “Livro dos Mortos” previa uma
espécie de defesa aos trabalhadores (operários), como também aos
escravos, esses não poderiam ser submetidos ao excesso de trabalho ou
maus tratos.
Por outro lado:
“A condição dos escravos utilizados nas grandes obras públicas era
extremamente cruel. Nas minas, nas pedreiras, nas construções
monumentais, milhares de escravos deixavam a marca de seu ingente
esforço e de seu sofrimento” (GIORDANI, 2008, p. 85).
Na prática, pode-se deduzir que os escravos não tinham a mesma sorte
daquela vivenciada pelos indivíduos pertencentes à classe dos felá ou
camponeses. Discute-se ainda que tipo de escravidão se realizava na
África, por punição, dívida, crime, doméstico ou de parentesco.
Segundo Dopcke (2001):
O fato de que os monumentos egípcios foram construídos utilizando
ampla mão-de-obra escrava é bem conhecido. Muitos reinos pré-coloniais,
como Songai e Benim, citados no documento pela sua grandeza, usavam
também escravos em grande número, conduziam regularmente expedições
armadas para a captura de escravos nas comunidades vizinhas e mantinham
um tráfico importante de escravos com a África do Norte e o Próximo
Oriente, através do deserto do Saara (DÖPCKE, 2001, p.34).
Alguns eram escravizados para suprir as necessidades de
sobrevivência. Já para reprodução, as mulheres africanas eram
escravizadas e vendidas para o mundo árabe, quanto mais bonita a
escrava, mais cara ela se tornava. Com as novas gerações provenientes da
reprodução com as escravas, ela não geraria novos escravos (a segunda
geração seria livre), novas remessas sempre eram importantes, o que de
fato alimentaria o mercado interno (SOUZA, 2003). Nesse caso, são os
árabes que incentivaram uma maior comercialização de escravos dentro da
África, não o europeu.
Lovejoy (2002) ressalta que a escravidão na África ainda era
percebida em pleno século XX e que os africanos se beneficiavam
economicamente de tal processo. Sendo, portanto legítima no meio
africano, a escravidão se realizava por meio de guerras entre tribos,
crimes, roubo, adultério, bruxaria etc. Os castigos também eram comuns
na África, e os escravos eram submetidos a chibatadas, privação de
alimentos entre outras formas de penalidade. O mundo Islâmico entre os
séculos VIII, IX e X era o maior receptor de escravos africanos,
utilizando-os em serviços militares, domésticos e até administrativos.
Giordani (2010) destaca que para as plantações do Iraque, buscava-se
mão de obra escrava em meados do séc VIII. No Iraque os escravos
africanos eram utilizados nas plantações de cana de açúcar e suas
realidades eram infra-humanas, pois os árabes não gostavam de executar
trabalhos manuais, o que ocasionou a ampliação de uma já existente
economia escravista (GIORDANI, 1985).
Mediante este sistema transatlântico foram embarcados, entre 1450 e
1900, em torno de 13 milhões de pessoas; dentre estes 9,6 a 11,8 milhões
chegaram com vida nas Américas26. 42% delas foram para as ilhas do
Caribe, 38% para o Brasil e menos de 5% para os Estados Unidos. Durante o
mesmo período, cerca de 6 milhões de africanos foram vendidos no
tráfico oriental (para a África do Norte, o Próximo Oriente e a
Península Árabe, a Índia e as ilhas no Oceano Índico). Cerca de 8
milhões de escravos permaneceram também neste período, na própria
África, sendo explorados pelos poderosos deste continente (DÖPCKE, 2001,
p.35).
Os poderosos deste continente eram Asante, Daomé, os reinos Ardra e
Hueda no Golfo do Benin, os reinos de Ndongo, Kasanje e Lunda em
Angola. Para Carvalho (2009): “O racismo antinegro é pura criação árabe e, na Europa, não contribuiu em nada para fomentar o tráfico negreiro”.
Ademais, se os africanos foram escravizados por africanos. Neste caso,
como se delimita o recebimento das cotas aos descendentes africanos no
Brasil? Como saberemos se quem recebe a cota é ou não descendente
daquele que foi escravizado ou daquele que escravizou?
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