segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal do Senhor: Festa pagã?

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz; sobre aqueles que habitavam uma região tenebrosa resplandeceu uma luz. Vós suscitais um grande regozijo, provocais uma imensa alegria; rejubilam-se diante de vós como na alegria da colheita, como exultam na partilha dos despojos. Porque o jugo que pesava sobre ele, a coleira de seu ombro e a vara do feitor, vós os quebrastes, como no dia de Madiã. Porque todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue serão lançados ao fogo e tornar-se-ão presa das chamas; porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros, e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz.(Is 9,1-5)

Tendo em vista a proximidade do Natal, o nosso coração bate com mais entusiasmo e alegria. Não só pelo fato de, neste tempo, a humanidade se confraternizar, as famílias se reunirem, as empresas celebrarem vendas ou aumentar a caridade fraterna. Mas, sobretudo, por um acontecimento especial: “um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; [...] e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz”.
Contudo, é de se perguntar: O Natal é uma Festa Pagã? A Igreja Católica paganizou a fé cristã introduzindo uma festa dedicada inicialmente ao Deus Sol ‘Invicto’? A julgar por uma teoria protestante sim. Mesmo contra todos os indícios históricos e sem demonstrar nenhuma prova cabal, nem muito menos nenhum argumento verossímil.
Citando a Enciclopédia Católica (edição 1911), afirmam os protestantes que: “a festa de Natal não estava incluída entre as primeiras festividades da Igreja. Os primeiros indícios são provenientes do Egito. Somente os pecadores (como Faraó e Herodes) celebraram com grande regozijo o dia que nasceram neste mundo”.
A julgar pelo que diz as escrituras que, segundo reconhecem os próprios protestantes, é a palavra de Deus, não é verdade a colocação de que só os pecadores celebravam o dia de nascimento. O Profeta Isaías nos demonstra exatamente o contrário quando revela-nos que o povo que andava nas trevas viu uma grande luz; e que essa luz é motivo de “grande regozijo e imensa alegria”, por isso rejubilam-se como “na alegria da colheita” e na “partilha dos despojos”.
Tendo em vista o semitismo típico do Antigo Testamento, todo leitor da Bíblia – e acredito que os protestantes o são – sabe perfeitamente que a “alegria da colheita” e a “partilha dos despojos” de uma guerra eram celebradas com festas públicas e públicas manifestações de alegria.

O anjo disse-lhes: Não temais, eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu na Cidade de Davi um Salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: achareis um recém-nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura. E subitamente ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste, que louvava a Deus e dizia: Glória a Deus no mais alto dos céus e na terra paz aos homens, objetos da benevolência (divina).(Lc 2,10-14)

É verdade que a celebração do Natal do Senhor não se deu, desde o início, no dia 25 de Dezembro, nem tampouco de maneira uniforme no oriente quanto no ocidente. Contudo, também não é verdade que quem instituiu essa festa foi o Imperador Constantino, mandando celebrar o Natal do Senhor nesse dia, mantendo um “espírito pagão”.
O que existe de concreto é que já por volta do ano 200, em torno de 130 anos antes de Constantino, Clemente de Alexandria afirmava que os teólogos egípcios não guardavam nenhum dia do ano, a não ser o natalício do Senhor (Stromata). A mesma Enciclopédia Católica citada pelos evangélicos revela que escritos datados de 243 d.C. mencionam a celebração do Natal, com data de 28 de Março, dia em que se acreditava que Deus havia criado o sol (ponto bastante relevante).
O certo é que os Cristãos sempre tentaram precisar a verdadeira data do nascimento de Cristo, e muito antes da conversão de Constantino ao Cristianismo. As provas indicam que a atribuição da data 25 de dezembro foi uma consequência das tentativas de se determinar quando deveriam celebrar sua morte e ressurreição.
Descobertas recentes baseadas nos escritos essênios encontrados em Qumran, que não podem sofrer nenhum tipo de suspeita de defesa da fé católica, tendo em vista que foram pronunciadas pelo Professor Talmon, docente judeu da Universidade Hebraica de Jerusalém, aproximam o nascimento de Jesus do dia 25 de dezembro.
A questão pode ser simplificada assim: Isabel era estéril, e não podia dar um filho a Zacarias, seu esposo e que pertencia à casta sacerdotal de Abias, servindo no templo de Jerusalém. “Nos tempos de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote por nome Zacarias, da classe de Abias; sua mulher, descendente de Aarão, chamava-se Isabel.” (Lc 1,5)
A casta sacerdotal no antigo Israel estava dividida em número de 24 classes, as quais alternavam-se no serviço litúrgico no templo por uma semana, duas vezes ao ano. Eles prestavam seus serviços seguindo “rigorosamente” uma ordem (escala) pré-definida e imutável. Sendo que a classe de Abias era a oitava na sequência dos turnos.
Com precisão o Professor Shemarjahu Talmon identificou a ordem cronológica que se sucediam as 24 classes sacerdotais. A Classe de Abias prestava duas vezes serviço no templo, e uma dessas vezes era na última semana de Setembro. Portanto, é verossímil afirmar que o Anúncio do Anjo do Senhor para anunciar a Gravidez de Isabel se deu entre 23 e 25 de setembro, já que, de acordo com a narrativa de São Lucas 1,8 Zacarias encontrava-se “exercendo diante de Deus as funções de Sacerdote”.
São Lucas 1,26 afirma que, no sexto mês da gravidez de Isabel, o que levaria ao dia 25 de Março – celebrado quase universalmente pelos cristãos do mundo como dia da Anunciação - o anjo visitou Maria Santíssima e anunciou que conceberia o filho de Deus. Caminhando mais três meses temos o nascimento de João Batista. Adiantando-se mais seis meses, portanto, 25 de Dezembro, temos o nascimento de Jesus Cristo.
Encerra-se, portanto, qualquer vestígio de paganização do cristianismo. Pelo contrário, sem sombra de dúvidas, o que aconteceu sempre no mundo helênico vivido pelos primeiros cristãos foi a CRISTIANIZAÇÃO do paganismo. Com todos esses dados, só resta-nos agradecer ao Senhor e se alegrar, pois o “Príncipe da Paz” nos será dado.
 
Autor Petterson Dantas

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