CURSO DE RELIGIÃO
Introdução
Um
grupo de moços nos procurou para pedir a organização de um curso de
religião, complementado por outros cursos humanísticos. A alegação
desses moços não podia ser melhor. Dizem que suas atividades são tão
absorventes que não permitem a elevação da mente e a dilatação do
espírito, sem a qual, por mais nobre que seja a tarefa, corre sempre o
homem o risco de se desumanizar.
Admiramo-nos
todos da sabedoria desses moços que, em tempo de ativismos e
secularizações, sabem que, sem o amor de Deus, corrompe-se o amor
humano, e sem a bússola da boa doutrina não há quem chegue a bom porto.
Dedicamos
este livro, de início, aos seus primeiros inspiradores, e depois a
todas as pessoas de boa vontade que se acharem em análogas
circunstâncias. E assim fica entendido que esta prolongada conversação
sobre as coisas de Deus dirige-se a pessoas que tenham um mínimo de
conhecimento de catecismo, e um médio nível secundário, e que sintam,
como aqueles primeiros, a necessidade de uma coordenação e de um
aperfeiçoamento de seu saber. Ficamos assim dispensados de prolongar o
encarecimento e a necessidade de tal estudo.
2. POSIÇÃO DO HOMEM
Os
vários seres que compõem o universo existem e movem-se, cada um a seu
modo, cumprindo sua função segundo sua natureza e as tendências nela
inscritas. Pode-se dizer também que, cada um a seu modo, obedece e louva
a Deus. Nesse grande conjunto cósmico observam-se certos seres
especiais que, por assim dizer, se segregam em si mesmos e se destacam
dos cosmos: são os seres vivos, que muito mais do que os inorgânicos se
caracterizam por essa integridade. Cada ser vivo, embora pertencendo ao
universo pela comunidade da matéria (são compostos de oxigênio, carbono,
etc. como outros seres não vivos podem ser), e embora pertencendo à
comunidade da espécie, se destaca por sua unidade, por sua inteireza e
por sua organização defensiva de tal integridade.
Um grau maior de perfeição possuem os seres vivos animais: são sujeitos de conhecimento sensível.
Cada um deles, além daquela integridade em que se fecha, realiza esta
outra maneira de ser um centro. Um gato, pelo fato de possuir os
sentidos que lhe trazem, não apenas o calor, a umidade, ou algum outro
efeito físico do mundo exterior, mas também uma representação interna desse mundo, possui uma perfeição nova que o destaca do mundo vegetal.
Com
mais este título de destaque e autonomia, o animal irracional está bem
inserido na espécie e no meio, e tem em suas tendências naturais todos
os instintos para se desincumbir bem de seu papel no drama da
existência. O gato pode se desavir com o cão, ou pode devorar o rato,
mas nenhum desses animais se deterá a fazer cogitações sobre o que é, o
que deve fazer, e de onde veio e para aonde irá.
Este
é o privilégio do homem. Dotado de uma nova e específica perfeição, a
racionalidade, de natureza espiritual, o homem é um ser que nunca estará
à vontade no mundo, como estariam os ratos num mundo sem gatos ou os
gatos num universo sem cães, porque, de certo modo, é maior do que o
mundo. Não possui, a não ser para as funções de sua natureza inferior,
os instintos afinados para necessidades vitais de sua tendência. O homem
é um ser que nasce fabulosamente rico, coroado com a “imagem e
semelhança de Deus”, e miseravelmente desvalido e pobre. E ao longo da
vida manterá sempre esse binômio de opulência e miséria: será sempre
maior do que o mundo pela espiritualidade da alma, mas também estará
sempre na posição de quem tem a racionalidade e a liberdade para
procurar escolher os caminhos de sua missão, e também para conhecer e
querer praticar atos de obediência e louvor de Deus.
Não
poderemos progredir ou sequer viver nossa religião se não possuirmos
uma forte noção do que é o homem, e de qual é sua posição em face do
mundo. E decididamente não poderemos viver o cristianismo se nos
entregarmos à má filosofia que nega a nota específica, a espiritualidade
da alma, e a conseqüente transcendência do homem sobre o mundo. O
secularismo ou temporalismo que hoje, como erva daninha, quer abafar a
videira do Cristo (como se possível fosse ao homem tal vitória), tem
estas características, e concebe o homem como parte do cosmos, imanente,
imerso na comunidade cósmica.
De
todos os seres da natureza o homem é o único que se interroga e que se
nega. Bastaria este fato para advertir o empirista, o imanentista, o
materialista, de que alguma incongruência existe entre o homem e o resto
da criação. Não alongaremos demais estas considerações pelo fato de nos
dirigirmos a pessoas que já têm a convicção da especificidade do
humano. Adiante, se Deus permitir, voltaremos ao assunto para mais
fundas pesquisas. No momento gravemos este imperativo: para agir, para
amar, para viver — em todos os planos — o homem precisa adquirir um saber.
Fonte: Permanência
Fonte: Permanência
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