segunda-feira, 18 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - INTRODUÇÃO

CURSO DE RELIGIÃO

  Introdução


1. PRIMEIRAS MOTIVAÇÕES


Um grupo de moços nos procurou para pedir a organização de um curso de religião, complementado por outros cursos humanísticos. A alegação desses moços não podia ser melhor. Dizem que suas atividades são tão absorventes que não permitem a elevação da mente e a dilatação do espírito, sem a qual, por mais nobre que seja a tarefa, corre sempre o homem o risco de se desumanizar.

Admiramo-nos todos da sabedoria desses moços que, em tempo de ativismos e secularizações, sabem que, sem o amor de Deus, corrompe-se o amor humano, e sem a bússola da boa doutrina não há quem chegue a bom porto.

  Dedicamos este livro, de início, aos seus primeiros inspiradores, e depois a todas as pessoas de boa vontade que se acharem em análogas circunstâncias. E assim fica entendido que esta prolongada conversação sobre as coisas de Deus dirige-se a pessoas que tenham um mínimo de conhecimento de catecismo, e um médio nível secundário, e que sintam, como aqueles primeiros, a necessidade de uma coordenação e de um aperfeiçoamento de seu saber. Ficamos assim dispensados de prolongar o encarecimento e a necessidade de tal estudo.

 

2. POSIÇÃO DO HOMEM


Os vários seres que compõem o universo existem e movem-se, cada um a seu modo, cumprindo sua função segundo sua natureza e as tendências nela inscritas. Pode-se dizer também que, cada um a seu modo, obedece e louva a Deus. Nesse grande conjunto cósmico observam-se certos seres especiais que, por assim dizer, se segregam em si mesmos e se destacam dos cosmos: são os seres vivos, que muito mais do que os inorgânicos se caracterizam por essa integridade. Cada ser vivo, embora pertencendo ao universo pela comunidade da matéria (são compostos de oxigênio, carbono, etc. como outros seres não vivos podem ser), e embora pertencendo à comunidade da espécie, se destaca por sua unidade, por sua inteireza e por sua organização defensiva de tal integridade.

 

Um grau maior de perfeição possuem os seres vivos animais: são sujeitos de conhecimento sensível. Cada um deles, além daquela integridade em que se fecha, realiza esta outra maneira de ser um centro. Um gato, pelo fato de possuir os sentidos que lhe trazem, não apenas o calor, a umidade, ou algum outro efeito físico do mundo exterior, mas também uma representação interna desse mundo, possui uma perfeição nova que o destaca do mundo vegetal.

 

Com mais este título de destaque e autonomia, o animal irracional está bem inserido na espécie e no meio, e tem em suas tendências naturais todos os instintos para se desincumbir bem de seu papel no drama da existência. O gato pode se desavir com o cão, ou pode devorar o rato, mas nenhum desses animais se deterá a fazer cogitações sobre o que é, o que deve fazer, e de onde veio e para aonde irá.

 

Este é o privilégio do homem. Dotado de uma nova e específica perfeição, a racionalidade, de natureza espiritual, o homem é um ser que nunca estará à vontade no mundo, como estariam os ratos num mundo sem gatos ou os gatos num universo sem cães, porque, de certo modo, é maior do que o mundo. Não possui, a não ser para as funções de sua natureza inferior, os instintos afinados para necessidades vitais de sua tendência. O homem é um ser que nasce fabulosamente rico, coroado com a “imagem e semelhança de Deus”, e miseravelmente desvalido e pobre. E ao longo da vida manterá sempre esse binômio de opulência e miséria: será sempre maior do que o mundo pela espiritualidade da alma, mas também estará sempre na posição de quem tem a racionalidade e a liberdade para procurar escolher os caminhos de sua missão, e também para conhecer e querer praticar atos de obediência e louvor de Deus.

 

Não poderemos progredir ou sequer viver nossa religião se não possuirmos uma forte noção do que é o homem, e de qual é sua posição em face do mundo. E decididamente não poderemos viver o cristianismo se nos entregarmos à má filosofia que nega a nota específica, a espiritualidade da alma, e a conseqüente transcendência do homem sobre o mundo. O secularismo ou temporalismo que hoje, como erva daninha, quer abafar a videira do Cristo (como se possível fosse ao homem tal vitória), tem estas características, e concebe o homem como parte do cosmos, imanente, imerso na comunidade cósmica.

 

De todos os seres da natureza o homem é o único que se interroga e que se nega. Bastaria este fato para advertir o empirista, o imanentista, o materialista, de que alguma incongruência existe entre o homem e o resto da criação. Não alongaremos demais estas considerações pelo fato de nos dirigirmos a pessoas que já têm a convicção da especificidade do humano. Adiante, se Deus permitir, voltaremos ao assunto para mais fundas pesquisas. No momento gravemos este imperativo: para agir, para amar, para viver — em todos os planos — o homem precisa adquirir um saber.

Fonte: Permanência

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