quinta-feira, 21 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - INTRODUÇÃO - PARTE IV



5. VANTAGENS DA CONEXÃO DOUTRINAL
 
As vantagens da conexão doutrinal são evidentes: não somente favorecem a retenção das verdades de fé, que desconexas constituiriam atos de pura e isolada memorização, como também, e principalmente, favorecem a resistência do corpo doutrinal à semelhança do que ocorre nos processos de resistência nos organismos vivos. Além disso, o corpo doutrinal bem estruturado e dotado de conexões vivas, produz nas profundezas da alma um estado de harmonia e paz que facilitará muito o desenvolvimento das virtudes e o crescimento em perfeição. O dogma bem assimilado, bem conectado, bem colocado, bem constelado, bem sistematizado — o dogma bem trabalhado pelo estudo e pela meditação é um gerador de piedade e de fervor religioso.
 
Para isto acontecer, porém, é indispensável colocar a especulação teológica como uma forma de conversação religiosa, ou como uma atividade de filial atenção às palavras de um pai afetuoso. Não se pode estudar teologia como quem estuda geometria descritiva, ou cálculo integral. A sabedoria será sempre obra de inteligência irmanada a um ato de amor. Ninguém será teólogo sem fé, ninguém sustentará a fé sem a caridade. Mais adiante entenderemos melhor essas coisas. No momento basta reter a necessidade de uma atitude amorosa do espírito para o bom proveito das verdades de fé, que devem sempre produzir em nós ressonâncias de oração, como se estivéssemos a falar dentro de uma imensa nave.
 
Em contradição diremos que talvez se expliquem as muitas aberrações que hoje se observam na Igreja não apenas pela diminuição de fé, mas antes disso pela diminuição das práticas que resguardam a fé: o estudo e a meditação. Com o estudo articulamos melhor os vários dados que compõem o corpo doutrinal; com a meditação e a vida de oração fixamos em nós, fazemos substância de nossa substância a doutrina santa e doce que, sendo um Verbo de Deus afeiçoado à alma humana, será também uma outra maneira de termos em nós o Corpo de Cristo.
 
Sem esse resguardo, e sem aquelas conexões que traz o estudo, a doutrina será em nós um sistema de idéias bambo e mal encaixado. Ao primeiro solavanco da vida, quem não religou os dados de sua religião, quem não assimilou o que engoliu, vomitará tudo, e sairá procurando outros alimentos para sua pobre alma vazia.
 
Agarremo-nos nós ao que temos, porque a vida de Fé não consiste essencialmente em procurar, em inquirir, em pesquisar, e em renovar as experiências mentais; o progresso verdadeiro do homem de Fé consiste sim, e essencialmente, em procurar — mas em procurar acréscimos de proveito a partir do que já temos como dom de Deus.
 
Recentemente, em La Documentation Catholique, n° 1522, 4 — 18 de agosto de 1968, sob o título “Religion verticale et religion horizontale”, lemos uma alocução pronunciada por Sua Santidade Paulo VI. Nessa alocução o Papa frisa bem que a fé não é uma interminável procura, que a fé consiste essencialmente numa posse: “A fé é antes de tudo uma posse: o crente já está em posse de certas verdades supremas que lhe vêm da palavra de Deus (...). Para o crente tudo se passa como se, no meio da obscuridade e da confusão, visse uma luz acender-se nele...”. Mais adiante acrescenta que esse dado primeiro, esse dom de Deus, pede progresso e crescimento, e nos lembra duas palavras admiráveis de Santo Agostinho: “Se o amor cresce, a busca d’Aquele que nós já achamos também deve crescer” e depois: “Achamos Deus para o procurar mais intensamente”. 

Fonte: Permanência

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