quinta-feira, 28 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO II - PARTE FINAL



7. NATUREZA E ATRIBUTOS DE DEUS
 
A filosofia nos ensina que as coisas são para nós inteligíveis pela forma, que é, nas coisas, espírito ou reflexo de espírito. Em si mesmas, as coisas serão mais inteligíveis à medida que se imaterializam; mas para nós essa luz de inteligibilidade passa por um máximo no nível proporcionado a nossa natureza. Assim é que para nós o máximo de clareza se encontra na ciência física, que estuda as formas ou as essências das coisas corporais, ou na ciência matemática onde a quantidade, categoria própria dos seres materiais, se encontra em estado de decantação abstrata. Daí por diante, e à medida que se espiritualiza o ser, cresce nele o fulgor da inteligibilidade, mas diminui para nós a percepção, como se a luz excessiva nos ofuscasse. Os antigos diziam que a inteligência humana, a mais baixa das inteligências, padece de certa nictalopia, que vê melhor nos ambientes de sombras. Temos “olhos de coruja”, e por isso o Sol dos seres, que é Deus, é visto dentro de uma grande ofuscação.
 
Além disso, o conúbio em que vivem sempre em nós o conhecimento racional e o sensível, a cada instante nos estorva. Sim, a cada instante queremos imagens das coisas espirituais. Mais adiante, quando chegarmos ao ponto de Encarnação do Verbo, veremos que Deus se relacionou conosco de modo a atender a exigência de totalidade de nossa natureza dual. Teremos então nos Sinais Sagrados uma visibilidade de nosso comércio com Deus.
 
Mas agora, enquanto permanecemos no domínio mais filosófico do que religioso, preparemo-nos para manter a inteligência isenta de qualquer representação sensível.
 
Nós diremos a seguir que Deus é bondade infinita, infinita inteligência, diremos que é todo poderoso, que governa o mundo, mas antes de tudo isto devemos começar pela idéia de ser que abrange universalmente, e analogicamente, tudo o que é. E nesta linha podemos dar o primeiro e principal titulo filosófico de Deus: é o ser por excelência, o ser pleno, o ser que tem em si mesmo a sua própria razão: o ser A-SE; e essa aseidade de Deus, achada pelo filosofo, corresponde bem ao nome que de si mesmo deu Javé a Moisés: “Ego sum qui sum”. “Eu sou aquele que sou”.
 
Em torno deste primeiro nome filosófico poderíamos colocar os outros que se prendem a eles e que nos foram dados nas vias demonstrativas: ATO PURO, CAUSA PRIMEIRA, SER A-SE.
 
Pensemos agora nos atributos de Deus, que dividiremos em negativos e positivos. Temos, de fato dois modos de erguer o pensamento a Deus, ou por sucessiva eliminação de imperfeições, ou por procura de perfeições que existem nas criaturas, mas em Deus atingem grau supremo.
 
Os atributos negativos são:
 
SIMPLICIDADE, ou imaterialidade, que exclui qualquer idéia de composição;
 
IMUTABILIDADE, que exclui a idéia de mudança;
 
ETERNIDADE, que excluía idéia de duração;
 
IMENSIDADE, que exclui a limitação de lugar;
 
INFINIDADE, que exclui limitação de qualquer perfeição sua;
 
UNIDADE, que é como a conseqüência lógica de todas as outras: Deus é uno e único. (Note-se desde já que essa unidade se refere à natureza de Deus, e não exclui a Trindade de Pessoas vista na Fé).
 
Os atributos positivos de Deus são aqueles a que somos levados a pensar quando seguimos o itinerário da Quarta Via. Enquanto as outras nos levavam a sucessivas exclusões e nos obrigavam a pensar num supremo absolutamente isento de tais limitações, a Quarta Via nos traça o itinerário dos graus de perfeição. E nesse itinerário Deus nos aparece como o Vivo dos vivos, com infinita capacidade de conhecimento e de amor.
 
É inevitável, em todas essas considerações, um certo antropomorfismo, pelo qual fazemos um Deus à nossa imagem. Precisamos usar aqui os mais fecundos e elásticos recursos da analogia para conseguirmos balbuciar alguma coisa sobre as perfeições divinas, e devemos anotar que essa analogia, por audaciosa que seja, não é um simples malabarismo verbal, e sim uma forma de conhecimento circunscrito às coisas visíveis e mensuráveis, podemos partir das criaturas, dos efeitos e remontar às causas supremas.
 
O apóstolo Paulo, para exprimir a transcendência das perfeições divinas disse: “Ele habita numa luz inacessível, e nenhum mortal o viu nem pode vê-lo aqui (no mundo) tal como Ele é em si-mesmo”. (I Tm. 6, 16) Mas o mesmo apóstolo também disse que “as perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis à inteligência por meio de sua obra”. (Rm. I, 20).
 
Partimos de sua obra para a demonstração de sua existência e para a enumeração de suas perfeições negativas; agora, para o enunciado das perfeições positivas partiremos daquela obra mais alta em que o Criador deixou mais viva a marca de sua imagem e semelhança. Antropomorfismo, artifício de criação de figuras homólogas, haveria, e houve todas as vezes que o espírito humano se contentou com meras metáforas que não realizavam a decolagem espiritual que só o conhecimento metafísico pode proporcionar.
 
Com a Fé, a alma humana galga todas essas dificuldades e diz: “Abba, Pai!”. Ou diz: “Creio em Deus Pai...” ou ainda, como o próprio Cristo nos ensinou: “Pai nosso, que estais no céu...”.  Mas a própria inteligência reclama seus direitos e consegue, no mais tenso de seus exercícios, balbuciar alguma coisa sobre as perfeições divinas a partir das perfeições humanas. E as duas afirmações se completam e se amparam: o título de Pai ajuda a inteligência a manter a difícil proporcionalidade de analogia entre o quase nada da criatura e o Tudo do Criador; e a elevação da inteligência ajuda a ver na Fé um Pai que transcende todo o universo: o Pai nosso, que está no céu.
 
Eis as chamadas perfeições positivas de Deus:
 
SAPIÊNCIA – “Quão magníficas são tuas obras Senhor, tudo fizeste com grande sapiência”. (Sl. 103, 24).
 
ONIPOTÊNCIA – “Tudo o que quis Deus fez, no céu, na terra, no mar e em todos os abismos”. (Sl. 134, 6).
 
JUSTIÇA – “Tu és justo, Senhor, e teus decretos são equânimes, e tu os promulgaste segundo a justiça e a exata verdade”. (Sl. 119, 137).
 
SANTIDADE – “Tu só és Santo...” (Glória, Lit. da Missa).
 
BONDADE E MISERICÓRDIA – “Como é misericordioso o Senhor para quem o teme”. (Sl. LIX, 3).

Fonte: Permanência

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