7. NATUREZA E
ATRIBUTOS DE DEUS
A filosofia nos
ensina que as coisas são para nós inteligíveis pela forma, que é, nas
coisas, espírito ou reflexo de espírito. Em si mesmas, as coisas serão mais
inteligíveis à medida que se imaterializam; mas para nós essa luz de
inteligibilidade passa por um máximo no nível proporcionado a nossa natureza.
Assim é que para nós o máximo de clareza se encontra na ciência física, que
estuda as formas ou as essências das coisas corporais, ou na ciência matemática
onde a quantidade, categoria própria dos seres materiais, se encontra em
estado de decantação abstrata. Daí por diante, e à medida que se espiritualiza
o ser, cresce nele o fulgor da inteligibilidade, mas diminui para nós
a percepção, como se a luz excessiva nos ofuscasse. Os antigos diziam que a
inteligência humana, a mais baixa das inteligências, padece de certa
nictalopia, que vê melhor nos ambientes de sombras. Temos “olhos de coruja”, e
por isso o Sol dos seres, que é Deus, é visto dentro de uma grande ofuscação.
Além disso, o
conúbio em que vivem sempre em nós o conhecimento racional e o sensível, a cada
instante nos estorva. Sim, a cada instante queremos imagens das coisas
espirituais. Mais adiante, quando chegarmos ao ponto de Encarnação do Verbo,
veremos que Deus se relacionou conosco de modo a atender a exigência de
totalidade de nossa natureza dual. Teremos então nos Sinais Sagrados uma
visibilidade de nosso comércio com Deus.
Mas agora, enquanto
permanecemos no domínio mais filosófico do que religioso, preparemo-nos para
manter a inteligência isenta de qualquer representação sensível.
Nós diremos a
seguir que Deus é bondade infinita, infinita inteligência, diremos que é todo
poderoso, que governa o mundo, mas antes de tudo isto devemos começar pela
idéia de ser que abrange universalmente, e analogicamente, tudo o que é.
E nesta linha podemos dar o primeiro e principal titulo filosófico de Deus: é o
ser por excelência, o ser pleno, o ser que tem em si mesmo a sua própria razão:
o ser A-SE; e essa aseidade de Deus, achada pelo filosofo,
corresponde bem ao nome que de si mesmo deu Javé a Moisés: “Ego sum qui sum”.
“Eu sou aquele que sou”.
Em torno deste
primeiro nome filosófico poderíamos colocar os outros que se prendem a eles e
que nos foram dados nas vias demonstrativas: ATO PURO, CAUSA PRIMEIRA,
SER A-SE.
Pensemos agora nos
atributos de Deus, que dividiremos em negativos e positivos. Temos, de fato
dois modos de erguer o pensamento a Deus, ou por sucessiva eliminação de
imperfeições, ou por procura de perfeições que existem nas criaturas, mas em
Deus atingem grau supremo.
Os atributos
negativos são:
SIMPLICIDADE, ou
imaterialidade, que exclui qualquer idéia de composição;
IMUTABILIDADE, que exclui a
idéia de mudança;
ETERNIDADE, que excluía idéia
de duração;
IMENSIDADE, que exclui a
limitação de lugar;
INFINIDADE, que exclui
limitação de qualquer perfeição sua;
UNIDADE, que é como a conseqüência lógica
de todas as outras: Deus é uno e único. (Note-se desde já que essa unidade se
refere à natureza de Deus, e não exclui a Trindade de Pessoas vista na Fé).
Os atributos
positivos de Deus são aqueles a que somos levados a pensar quando seguimos o
itinerário da Quarta Via. Enquanto as outras nos levavam a sucessivas
exclusões e nos obrigavam a pensar num supremo absolutamente isento de tais
limitações, a Quarta Via nos traça o itinerário dos graus de perfeição.
E nesse itinerário Deus nos aparece como o Vivo dos vivos, com infinita
capacidade de conhecimento e de amor.
É inevitável, em
todas essas considerações, um certo antropomorfismo, pelo qual fazemos um Deus
à nossa imagem. Precisamos usar aqui os mais fecundos e elásticos recursos da
analogia para conseguirmos balbuciar alguma coisa sobre as perfeições divinas,
e devemos anotar que essa analogia, por audaciosa que seja, não é um simples
malabarismo verbal, e sim uma forma de conhecimento circunscrito às coisas visíveis
e mensuráveis, podemos partir das criaturas, dos efeitos e remontar às
causas supremas.
O apóstolo Paulo,
para exprimir a transcendência das perfeições divinas disse: “Ele habita numa
luz inacessível, e nenhum mortal o viu nem pode vê-lo aqui (no mundo) tal como
Ele é em si-mesmo”. (I Tm. 6, 16) Mas o mesmo apóstolo também disse que “as
perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis à inteligência por meio de
sua obra”. (Rm. I, 20).
Partimos de sua
obra para a demonstração de sua existência e para a enumeração de suas
perfeições negativas; agora, para o enunciado das perfeições positivas
partiremos daquela obra mais alta em que o Criador deixou mais viva a marca de
sua imagem e semelhança. Antropomorfismo, artifício de criação de figuras homólogas,
haveria, e houve todas as vezes que o espírito humano se contentou com meras
metáforas que não realizavam a decolagem espiritual que só o
conhecimento metafísico pode proporcionar.
Com a Fé, a alma
humana galga todas essas dificuldades e diz: “Abba, Pai!”. Ou diz: “Creio em
Deus Pai...” ou ainda, como o próprio Cristo nos ensinou: “Pai nosso, que
estais no céu...”. Mas a própria inteligência reclama seus direitos e
consegue, no mais tenso de seus exercícios, balbuciar alguma coisa sobre as
perfeições divinas a partir das perfeições humanas. E as duas afirmações se
completam e se amparam: o título de Pai ajuda a inteligência a manter a difícil
proporcionalidade de analogia entre o quase nada da criatura e o Tudo do
Criador; e a elevação da inteligência ajuda a ver na Fé um Pai que transcende
todo o universo: o Pai nosso, que está no céu.
Eis as chamadas
perfeições positivas de Deus:
SAPIÊNCIA – “Quão magníficas são tuas obras
Senhor, tudo fizeste com grande sapiência”. (Sl. 103, 24).
ONIPOTÊNCIA – “Tudo o que quis
Deus fez, no céu, na terra, no mar e em todos os abismos”. (Sl. 134, 6).
JUSTIÇA – “Tu és justo, Senhor, e teus
decretos são equânimes, e tu os promulgaste segundo a justiça e a exata
verdade”. (Sl. 119, 137).
SANTIDADE – “Tu só és Santo...” (Glória, Lit.
da Missa).
Fonte: Permanência
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