5. OS ARGUMENTOS
MORAIS E PSICOLÓGICOS.
Como falaremos de
Deus, de sua existência e de suas perfeições, às crianças, e aos adolescentes
que se aproximam de nós com boa inquietação?
Antes de tudo, em
termos de senso-comum, isto é, de idéias que resultam das primeiras elaborações
de nossa razão. Às crianças menores falaremos pelo exemplo do respeito que
temos ao Pai do Céu. Sem grande inconveniente (apesar de tudo o que dizem os
modernos racionalistas da pastoral catequética) podemos usar imagens, desde que
envolvidas no sentimento de respeito que será, para a criança, a principal
descoberta. Ela está habituada a ver nos pais a mais alta instância do quadro
familiar, e agora, diante do respeito que os pais demonstram pelo Pai do Céu,
ela se sente solicitada a ultrapassar os quadros visíveis e rotineiros de sua
vida.
Em relação ao
adulto sem fé que nos procura, a atitude é semelhante, mas mais rica de
recursos: começamos pelos lados do senso comum; conforme as circunstâncias
usaremos ou não recursos apologéticos da defesa da credibilidade (os vinte
séculos da Igreja, a vida religiosa de homens famosos nas artes e nas ciências,
etc.); mas a melhor abordagem é proporcionada pelos argumentos psicológicos e
morais que não demonstram mas condicionam e abalam mais profundamente as
pessoas do que uma demonstração metafísica.
Tomemos, por
exemplo, a idéia de contingência (Terceira Via) moral e psicologicamente
condicionada. Cada um de nós sente agudamente essa essencial dependência de
nosso ser em contraste como o alto valor, a alta dignidade de que somos
portadores em face de todo o mundo físico. Nós medimos o universo, pesamos os
astros, desvendamos os átomos, liberamos as energias escondidas na matéria, mas
todos esses títulos de glória se contrapõem a uma congênita e essencial
debilidade. Somos, mas poderíamos não ser. Cada um que nasce é o que é por uma
composição de lei e de acaso, um e outro fora de nosso alcance. Nascemos sem
ser ouvidos, aqui estamos, e em cada momento a composição de ser e não ser
manifesta a mais aguda dependência. Eu, tão autônomo, tão eu, sou assim uma
leve coisa pendurada não sei até quando, nem sei em quê.
E assim, gemendo, a
alma sobe à procura duma razão de ser das coisas que em si mesmas não têm a
própria razão de ser. Hoje estou aqui, hoje faço previsões, cálculos,
programas, e ouso estender por dias e até anos os meus projetos insensatos. De
repente cruzam-se as órbitas, as minhas e as de outro fenômeno qualquer, e eu
tombo.
Nossa infinita
dependência pede explicações, nosso instinto de imortalidade da alma, nossa
idéia de valores que transcendem à rotina da vida (e pelos quais vale a pena
dar a vida), tudo nos pede explicações. A que vim? O que sou? Aonde vou? Nosso
coração inquieto, como disse Santo Agostinho, só em Deus encontrará verdade e
paz. E é pelo solícito aproveitamento de todos esses anseios da alma que
podemos aproximar de Deus quem se aproxima de nós.
Alguns textos de
inspiração divina ou humana poderão ajudar a alma inquieta: “Ó Senhor, diante
de vós sou como um verdadeiro nada... como tivestes lembrança de mim para me
criar?”. São Francisco de Sales usa essa consideração para sua primeira
meditação na Introdução à Vida Devota: “Considera que há tantos anos não
existias, e teu ser era um verdadeiro nada. Onde estávamos nós, ó minha alma,
nesse tempo? O mundo já durara tanto, e de nós não tinha sequer notícias...”.
Glosando esses sábios
motes, escrevemos estas linhas em que se traduzem as interrogações angustiadas
de um personagem:
“Mas naquele tempo
eu não existia. Minha mãe brincava com boneca. Se por hipótese alguém lhe
gritasse ao ouvido o meu nome: — José Maria! José Maria! Ela não teria nenhum
sobressalto materno. Eu não era. Nem havia necessidade de que fosse. O ar do
mundo não tinha o menor frêmito que me denunciasse e que me anunciasse. Não
havia papel caído no chão de que pudesse dizer: foi o José Maria. Não havia um
livro esquecido numa cadeira de que pudesse afirmar: é do José Maria. Nada.
Nada. Um nada branco, transparente, inocente, indolor. Um não ser de que
ninguém se poderia lastimar, de que ninguém se poderia espantar...”.
(Lições de
Abismo — Cap. X).
Por outro lado sou
obrigado a reconhecer que medi as distâncias dos astros, compus óperas,
construí monumentos, desmontei átomos, como se minha raça tivesse o domínio
sobre todas as coisas — um domínio gradualmente conquistado, mas, ainda assim,
verdadeiro e cada vez maior. Tenho inteligência para medir, compor, analisar, e
ao mesmo tempo tenho a sorte frágil das moscas. Poderei razoavelmente pensar
tamanho absurdo? Poderei pensar que seja, como homem, e por puro acaso, o único
ser inteligente do Cosmos? Poderei pensar que a pura matéria, na sua cega
loteria, alcance sucessivamente formas perfeitas que não estavam na memória e
na intenção dos inocentes átomos de hidrogênio? Poderei pensar que não houve
intenção, que não houve finalidade na elaboração de um olho? Ou então deverei
dizer que vejo porque tenho olhos e jamais que tenho olhos para ver?
Todas essas
considerações, que desenvolvem as idéias essenciais contidas naquelas cinco
vias, adaptam-se assim as exigências psicológicas e morais de nossa alma, e nos
levam a enfrentar uma opção decisiva: ou prolongamos suas conseqüências e nos
aproximamos da idéia de Deus; ou nos detemos e volvemos à rotina da vida
dispostos a não levar avante tais investigações que já pressentimos cheias de
exigências.
6. EXPERIÊNCIAS DA
ALMA
Depois das
demonstrações da existência de Deus, e dos argumentos morais e psicológicos,
isto é depois da especulação metafísica e dialética que procura transmitir uma
convicção com jogos de argumentos, convém agora mencionar as experiências
profundas da alma que normalmente nos levam ao encontro de Deus. Há a
experiência da admiração diante da beleza das coisas e a experiência do gosto
da verdade, mas acima de todas há a experiência profunda do bem por si mesmo
amado e desejado. Por quê? Em nome do que me inclino eu diante do Bem, por si
mesmo amado e desejado? Cada homem normal já fez mil vezes essa experiência
profunda na qual sente que não é o interesse direito próprio ou alheio que está
em jogo. Quem salva com risco de vida uma criança desconhecida não encontra
nenhuma das motivações invocadas uma cabal explicação. O imperativo do bem,
livre e amorosamente obedecido, é uma das mais profundas e reveladoras
experiências da alma: nela se vê um como que instinto certo de Deus.
“Medito durante a
noite em meu coração”. (Sl. 76, 7).
Fonte: Permanência
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