quarta-feira, 27 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO II - EM DEUS PAI TODO PODEROSO³



5. OS ARGUMENTOS MORAIS E PSICOLÓGICOS.
 
Como falaremos de Deus, de sua existência e de suas perfeições, às crianças, e aos adolescentes que se aproximam de nós com boa inquietação?
 
Antes de tudo, em termos de senso-comum, isto é, de idéias que resultam das primeiras elaborações de nossa razão. Às crianças menores falaremos pelo exemplo do respeito que temos ao Pai do Céu. Sem grande inconveniente (apesar de tudo o que dizem os modernos racionalistas da pastoral catequética) podemos usar imagens, desde que envolvidas no sentimento de respeito que será, para a criança, a principal descoberta. Ela está habituada a ver nos pais a mais alta instância do quadro familiar, e agora, diante do respeito que os pais demonstram pelo Pai do Céu, ela se sente solicitada a ultrapassar os quadros visíveis e rotineiros de sua vida.
 
Em relação ao adulto sem fé que nos procura, a atitude é semelhante, mas mais rica de recursos: começamos pelos lados do senso comum; conforme as circunstâncias usaremos ou não recursos apologéticos da defesa da credibilidade (os vinte séculos da Igreja, a vida religiosa de homens famosos nas artes e nas ciências, etc.); mas a melhor abordagem é proporcionada pelos argumentos psicológicos e morais que não demonstram mas condicionam e abalam mais profundamente as pessoas do que uma demonstração metafísica.
          
Tomemos, por exemplo, a idéia de contingência (Terceira Via) moral e psicologicamente condicionada. Cada um de nós sente agudamente essa essencial dependência de nosso ser em contraste como o alto valor, a alta dignidade de que somos portadores em face de todo o mundo físico. Nós medimos o universo, pesamos os astros, desvendamos os átomos, liberamos as energias escondidas na matéria, mas todos esses títulos de glória se contrapõem a uma congênita e essencial debilidade. Somos, mas poderíamos não ser. Cada um que nasce é o que é por uma composição de lei e de acaso, um e outro fora de nosso alcance. Nascemos sem ser ouvidos, aqui estamos, e em cada momento a composição de ser e não ser manifesta a mais aguda dependência. Eu, tão autônomo, tão eu, sou assim uma leve coisa pendurada não sei até quando, nem sei em quê.
 
E assim, gemendo, a alma sobe à procura duma razão de ser das coisas que em si mesmas não têm a própria razão de ser. Hoje estou aqui, hoje faço previsões, cálculos, programas, e ouso estender por dias e até anos os meus projetos insensatos. De repente cruzam-se as órbitas, as minhas e as de outro fenômeno qualquer, e eu tombo.
 
Nossa infinita dependência pede explicações, nosso instinto de imortalidade da alma, nossa idéia de valores que transcendem à rotina da vida (e pelos quais vale a pena dar a vida), tudo nos pede explicações. A que vim? O que sou? Aonde vou? Nosso coração inquieto, como disse Santo Agostinho, só em Deus encontrará verdade e paz. E é pelo solícito aproveitamento de todos esses anseios da alma que podemos aproximar de Deus quem se aproxima de nós.
 
Alguns textos de inspiração divina ou humana poderão ajudar a alma inquieta: “Ó Senhor, diante de vós sou como um verdadeiro nada... como tivestes lembrança de mim para me criar?”. São Francisco de Sales usa essa consideração para sua primeira meditação na Introdução à Vida Devota: “Considera que há tantos anos não existias, e teu ser era um verdadeiro nada. Onde estávamos nós, ó minha alma, nesse tempo? O mundo já durara tanto, e de nós não tinha sequer notícias...”.
 
Glosando esses sábios motes, escrevemos estas linhas em que se traduzem as interrogações angustiadas de um personagem:
 
“Mas naquele tempo eu não existia. Minha mãe brincava com boneca. Se por hipótese alguém lhe gritasse ao ouvido o meu nome: — José Maria! José Maria! Ela não teria nenhum sobressalto materno. Eu não era. Nem havia necessidade de que fosse. O ar do mundo não tinha o menor frêmito que me denunciasse e que me anunciasse. Não havia papel caído no chão de que pudesse dizer: foi o José Maria. Não havia um livro esquecido numa cadeira de que pudesse afirmar: é do José Maria. Nada. Nada. Um nada branco, transparente, inocente, indolor. Um não ser de que ninguém se poderia lastimar, de que ninguém se poderia espantar...”.
(Lições de Abismo — Cap. X).
 
Por outro lado sou obrigado a reconhecer que medi as distâncias dos astros, compus óperas, construí monumentos, desmontei átomos, como se minha raça tivesse o domínio sobre todas as coisas — um domínio gradualmente conquistado, mas, ainda assim, verdadeiro e cada vez maior. Tenho inteligência para medir, compor, analisar, e ao mesmo tempo tenho a sorte frágil das moscas. Poderei razoavelmente pensar tamanho absurdo? Poderei pensar que seja, como homem, e por puro acaso, o único ser inteligente do Cosmos? Poderei pensar que a pura matéria, na sua cega loteria, alcance sucessivamente formas perfeitas que não estavam na memória e na intenção dos inocentes átomos de hidrogênio? Poderei pensar que não houve intenção, que não houve finalidade na elaboração de um olho? Ou então deverei dizer que vejo porque tenho olhos e jamais que tenho olhos para ver?
 
Todas essas considerações, que desenvolvem as idéias essenciais contidas naquelas cinco vias, adaptam-se assim as exigências psicológicas e morais de nossa alma, e nos levam a enfrentar uma opção decisiva: ou prolongamos suas conseqüências e nos aproximamos da idéia de Deus; ou nos detemos e volvemos à rotina da vida dispostos a não levar avante tais investigações que já pressentimos cheias de exigências.
        
6. EXPERIÊNCIAS DA ALMA
 
Depois das demonstrações da existência de Deus, e dos argumentos morais e psicológicos, isto é depois da especulação metafísica e dialética que procura transmitir uma convicção com jogos de argumentos, convém agora mencionar as experiências profundas da alma que normalmente nos levam ao encontro de Deus. Há a experiência da admiração diante da beleza das coisas e a experiência do gosto da verdade, mas acima de todas há a experiência profunda do bem por si mesmo amado e desejado. Por quê? Em nome do que me inclino eu diante do Bem, por si mesmo amado e desejado? Cada homem normal já fez mil vezes essa experiência profunda na qual sente que não é o interesse direito próprio ou alheio que está em jogo. Quem salva com risco de vida uma criança desconhecida não encontra nenhuma das motivações invocadas uma cabal explicação. O imperativo do bem, livre e amorosamente obedecido, é uma das mais profundas e reveladoras experiências da alma: nela se vê um como que instinto certo de Deus.
 
“Medito durante a noite em meu coração”. (Sl. 76, 7).
 
Podemos dizer que é essa iluminação espiritual, essa conversação no íntimo da alma que predispõe o homem para os argumentos, para as demonstrações, e para a vida da Fé desabrochada. Ai do homem que se entrega à trepidação constante da vida e foge do silêncio-fecundo!

Fonte: Permanência

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