5. TUDO OU NADA
Retomemos o esquema
estrutural do Credo: “Creio em (a, b, c,...) porque
Deus revelou”. E consideremos o seguinte: não é em cada um dos artigos a,
b, c,... , ponderados e examinados em seus títulos de
credibilidade, que nós cremos primeiramente, essencialmente — é na palavra de
Deus. Este é o eixo a que se referem, e em que se prendem os artigos a, b,
c,...; de onde concluímos o seguinte: não podemos abandonar um só desses
artigos, porque se eu disser que não creio em c, por exemplo, não é
somente desse que eu descreio, e sim do critério essencial, do motivo formal de
nossa Fé sobrenatural, isto é, da palavra de Deus. E se descreio da palavra de
Deus descreio de todos os outros artigos como revelados. Continuarei a
crer na coleção de artigos de minha escolha, mas então esse CREIO não será mais
de Fé divina, e sim de Fé humana.
Vamos mais longe:
se pretendermos crer com Fé divina no dado revelado (Sagrada Escritura e
Tradição) com livre interpretação, como querem os protestantes, e com desprezo
pelo que ensina a Igreja, novamente caímos no mesmo engano mortal. Não é divino
esse modo de crer que contraria tão afrontosamente a vontade de Deus,
claramente expressa nos evangelhos: “Ide, ensinai a todos os povos, e
batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os também a observar
meus mandamentos e eu estarei convosco até o fim do mundo”. (Mt. 28, 19).
É aos discípulos,
e, portanto ao colégio apostólico, e, por conseguinte à Igreja que Jesus dá o
divino diploma para ensinar as verdades de Deus.
E daí se conclui o
que era de esperar. Uma vez que o critério de nosso assentimento de Fé divina,
ou teologal, é a palavra de Deus, primeiro anunciada pelos profetas, e depois,
na plenitude dos tempos confirmada e completada pelo próprio Verbo Divino,
temos de aceitar todos os artigos, e temos de nos submeter ao condicionamento
do Magistério, sem o quê perdemos aquele critério e com ele todo o valor divino
de nossa Fé. Estamos diante de uma opção sem igual no mundo, e podemos dizer
que Deus espera de nós uma rendição incondicional: tudo ou nada.
Há inúmeras
situações humanas em que a solução acertada é um meio termo. Assim acontece
quando, por exemplo, queremos regular o uso dos bens materiais; e assim também
acontece quando devemos navegar entre escolhos. Seria, entretanto um erro
gravíssimo supor que a boa solução está sempre no meio termo ou na bissetriz.
Costuma-se hoje criticar, apostrofar as pessoas que em certas situações de
dilema tomam posições extremadas ou radicais. Há também inúmeros
casos em que o acerto está num extremo e não no meio. A integridade e a
totalidade da Fé estão nesse caso.
A Fé divina
constituirá para nós a mais bela e adamantina intolerância; ou a maior das
exigências feitas aos homens. Seria insustentável se Deus mesmo, para tanto,
não nos desse a força interna, a virtude teologal, visão obscura, mas certa,
semente de vida eterna, mas já eternidade diante de Deus. E para nós é
especialmente grato lembrarmo-nos de que aparelho, de que obra, nos vêm essa
energia espiritual — a Cruz de nosso Salvador.
6. FÉ SOBRENATURAL
Já mais de uma vez
aludimos a esta característica essencial de nossa Fé. Ela consiste no teor
divino da qualidade criada por Deus nas almas dóceis, ou melhor, consiste no
caráter sobrenatural de tudo o que deriva da Fé divina. Trata-se, pois,
de uma qualidade, de uma faculdade, e de operações que não pertencem à ordem
da natureza e sim à ordem da graça. E é essa ordem, esse domínio, e
essa vida que chamamos de sobrenatural.
Mas adiante, no
momento azado de estudar esses problemas da moral e da psicologia sobrenatural,
completaremos, ou melhor, dilataremos essas noções. Agora, não podemos
dispensar uma referência mínima a esse dualismo da vida cristã: não podemos
prosseguir o estudo de nosso Credo sem esta advertência: estamos no domínio das
verdades sobrenaturais, cuja altitude e cuja pureza é um dos nossos principais
pontos de honra. Mais de uma vez, ensinando aos seus discípulos, Jesus reage
vivamente quando algum deles tenta puxar para baixo (hoje diríamos: horizontalizar)
as coisas da Fé divina. Um belo exemplo é o dia em que o Cristo instituía o
papado e elegeu Pedro, primeiro
pontífice.
“Quando chegavam à
região da Cesareia de Filipe, Jesus interrogou seus discípulos: — ‘Quem dizem
que é o Filho do homem?’ E eles responderam: ‘Dizem uns que é João Batista,
outros Elias, outros Jeremias ou algum dos demais profetas’. E Ele: ‘E vós?
quem dizeis vós que eu sou?’ Simão Pedro, tomando a palavra disse: ‘Vós sois o
Cristo, Filho de Deus vivo’. Jesus lhe respondeu: ‘Bem-aventurado és tu, Simão
Bar-Jona, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isto, mas meu Pai
que está nos céus. E eu te digo que tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei
minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei
as chaves dos céus...”. (Mt. 16, 13).
Mas logo após,
quando anunciava sua paixão, e quando Pedro intempestivamente quer julgar a
obra de Deus com seus critérios, eis a voz severa que ouve nosso primeiro bom
Papa:
“Voltando-se para
Pedro, Ele diz: ‘Afasta-se de mim Satanás! tu me escandalizas porque (agora)
não tens o instinto das coisas de Deus, e sim o das coisas dos homens’”.
Saibamos nós, dia a
dia, à força de oração, meditação, freqüência dos sacramentos e estudo, possuir
cada vez mais vivo o sentir das coisas de Deus com os critérios da Fé pura; e
saibamos, com todas as armas do Cristo, nos defender do erro principal de nosso
tempo, que consiste em julgar com critérios humanos e temporais as coisas de
Deus e da religião que Ele mesmo nos ensinou. A grande heresia, a grande
tentação de nosso tempo reside nessa temporalização ou horizontalização do
cristianismo.
Fonte: Permanência
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