sábado, 23 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO I - EU CREIO³



5. TUDO OU NADA
 
Retomemos o esquema estrutural do Credo: “Creio em (a, b, c,...) porque Deus revelou”. E consideremos o seguinte: não é em cada um dos artigos a, b, c,... , ponderados e examinados em seus títulos de credibilidade, que nós cremos primeiramente, essencialmente — é na palavra de Deus. Este é o eixo a que se referem, e em que se prendem os artigos a, b, c,...; de onde concluímos o seguinte: não podemos abandonar um só desses artigos, porque se eu disser que não creio em c, por exemplo, não é somente desse que eu descreio, e sim do critério essencial, do motivo formal de nossa Fé sobrenatural, isto é, da palavra de Deus. E se descreio da palavra de Deus descreio de todos os outros artigos como revelados. Continuarei a crer na coleção de artigos de minha escolha, mas então esse CREIO não será mais de Fé divina, e sim de Fé humana.
 
Vamos mais longe: se pretendermos crer com Fé divina no dado revelado (Sagrada Escritura e Tradição) com livre interpretação, como querem os protestantes, e com desprezo pelo que ensina a Igreja, novamente caímos no mesmo engano mortal. Não é divino esse modo de crer que contraria tão afrontosamente a vontade de Deus, claramente expressa nos evangelhos: “Ide, ensinai a todos os povos, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os também a observar meus mandamentos e eu estarei convosco até o fim do mundo”. (Mt. 28, 19).
 
É aos discípulos, e, portanto ao colégio apostólico, e, por conseguinte à Igreja que Jesus dá o divino diploma para ensinar as verdades de Deus.
 
E daí se conclui o que era de esperar. Uma vez que o critério de nosso assentimento de Fé divina, ou teologal, é a palavra de Deus, primeiro anunciada pelos profetas, e depois, na plenitude dos tempos confirmada e completada pelo próprio Verbo Divino, temos de aceitar todos os artigos, e temos de nos submeter ao condicionamento do Magistério, sem o quê perdemos aquele critério e com ele todo o valor divino de nossa Fé. Estamos diante de uma opção sem igual no mundo, e podemos dizer que Deus espera de nós uma rendição incondicional: tudo ou nada.
 
Há inúmeras situações humanas em que a solução acertada é um meio termo. Assim acontece quando, por exemplo, queremos regular o uso dos bens materiais; e assim também acontece quando devemos navegar entre escolhos. Seria, entretanto um erro gravíssimo supor que a boa solução está sempre no meio termo ou na bissetriz. Costuma-se hoje criticar, apostrofar as pessoas que em certas situações de dilema tomam posições extremadas ou radicais. Há também inúmeros casos em que o acerto está num extremo e não no meio. A integridade e a totalidade da Fé estão nesse caso.
 
A Fé divina constituirá para nós a mais bela e adamantina intolerância; ou a maior das exigências feitas aos homens. Seria insustentável se Deus mesmo, para tanto, não nos desse a força interna, a virtude teologal, visão obscura, mas certa, semente de vida eterna, mas já eternidade diante de Deus. E para nós é especialmente grato lembrarmo-nos de que aparelho, de que obra, nos vêm essa energia espiritual — a Cruz de nosso Salvador.
        
6. FÉ SOBRENATURAL
 
Já mais de uma vez aludimos a esta característica essencial de nossa Fé. Ela consiste no teor divino da qualidade criada por Deus nas almas dóceis, ou melhor, consiste no caráter sobrenatural de tudo o que deriva da Fé divina. Trata-se, pois, de uma qualidade, de uma faculdade, e de operações que não pertencem à ordem da natureza e sim à ordem da graça. E é essa ordem, esse domínio, e essa vida que chamamos de sobrenatural.
 
Mas adiante, no momento azado de estudar esses problemas da moral e da psicologia sobrenatural, completaremos, ou melhor, dilataremos essas noções. Agora, não podemos dispensar uma referência mínima a esse dualismo da vida cristã: não podemos prosseguir o estudo de nosso Credo sem esta advertência: estamos no domínio das verdades sobrenaturais, cuja altitude e cuja pureza é um dos nossos principais pontos de honra. Mais de uma vez, ensinando aos seus discípulos, Jesus reage vivamente quando algum deles tenta puxar para baixo (hoje diríamos: horizontalizar) as coisas da Fé divina. Um belo exemplo é o dia em que o Cristo instituía o papado e elegeu Pedro, primeiro pontífice.                                       
 
“Quando chegavam à região da Cesareia de Filipe, Jesus interrogou seus discípulos: — ‘Quem dizem que é o Filho do homem?’ E eles responderam: ‘Dizem uns que é João Batista, outros Elias, outros Jeremias ou algum dos demais profetas’. E Ele: ‘E vós? quem dizeis vós que eu sou?’ Simão Pedro, tomando a palavra disse: ‘Vós sois o Cristo, Filho de Deus vivo’. Jesus lhe respondeu: ‘Bem-aventurado és tu, Simão Bar-Jona, porque não foi a carne e o sangue que te revelaram isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és pedra, e sobre essa pedra edificarei minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves dos céus...”. (Mt. 16, 13).
 
Mas logo após, quando anunciava sua paixão, e quando Pedro intempestivamente quer julgar a obra de Deus com seus critérios, eis a voz severa que ouve nosso primeiro bom Papa:
 
“Voltando-se para Pedro, Ele diz: ‘Afasta-se de mim Satanás! tu me escandalizas porque (agora) não tens o instinto das coisas de Deus, e sim o das coisas dos homens’”.
 
Saibamos nós, dia a dia, à força de oração, meditação, freqüência dos sacramentos e estudo, possuir cada vez mais vivo o sentir das coisas de Deus com os critérios da Fé pura; e saibamos, com todas as armas do Cristo, nos defender do erro principal de nosso tempo, que consiste em julgar com critérios humanos e temporais as coisas de Deus e da religião que Ele mesmo nos ensinou. A grande heresia, a grande tentação de nosso tempo reside nessa temporalização ou horizontalização do cristianismo.
 
Por outro lado, e até por causa do flagelo do “naturalismo” (que quer destruir o sobrenatural), lembremo-nos que devemos aos nossos irmãos o benfazejo testemunho de Cristo, e a saudável refração nas obras temporais dos princípios santos que nos purificam o coração.

Fonte: Permanência

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