Também neste
domínio não saberíamos como começar se não partisse de Deus a iniciativa
primeira. Nossa religião repousa sobre esse dado fundamental da iniciativa
primeira, sem o qual poderíamos pensar em Deus entre as categorias filosóficas,
mas não poderíamos conhecê-lo como Amigo íntimo. Para isto foi preciso que Ele
tivesse, repetidamente, a iniciativa primeira. Essa primeira descida de Deus,
autor da Fé, se faz de dois modos: no princípio exterior consubstanciado na Revelação;
e pelo princípio exterior da Graça. Mais adiante voltaremos a este
binômio; no momento basta-nos imaginar que Deus nos deu uma notícia exterior,
que se acha compendiada na Sagrada Escritura e na Tradição, e logo nos deu, no
mais íntimo de nossa inteligência, a capacidade de adivinhar o divino da
Revelação e de crer nele de todo o coração.
Posto o problema
nestes termos temos a mesma dificuldade anteriormente apontada no curso de
Filosofia. Como começar o estudo da Sagrada Doutrina? Que itinerário seguir?
Nossa religião é um
universo espiritual imenso, e um imenso universo cultural. Podemos passar a
vida inteira estudando o cristianismo, sua doutrina, seu culto, sua liturgia,
suas fontes, e mais as repercussões históricas e culturais de seus vinte
séculos de civilização, de Tradição, de estudo de arte, sem lograrmos saber uma
pequenina fração do que já foi pensado e dito em torno do mesmo tema central
aparentemente tão pobre: um homem galileu foi crucificado, morto e sepultado,
sob Pôncio Pilatos.
De todas as linhas
possíveis, podemos destacar três linhas principais, três roteiros bem
demarcados por Aquele mesmo que teve a primeira iniciativa de tal instrução.
Estes três roteiros correspondem a um método clássico que está muito longe de
ter dado os últimos frutos, como pretendem os modernistas.
São os seguintes:
Teologia Dogmática
Conhecimento dos
artigos de fé.
“Creio em Deus Pai
todo poderoso”.
Teologia Moral
Conhecimento da
Vontade de Deus.
Dez mandamentos.
“Seja feita a sua vontade...”.
Teologia Ascética e
Mística
Conhecimento dos
apelos de Deus à vida de perfeição:
“Sede perfeitos
como Vosso Pai celestial é perfeito”.
Estudaremos aqui a
primeira linha, ou seja, a Teologia Dogmática. O roteiro nos é dado por este
pequenino e maravilhoso compêndio de fé, que é atribuído aos primeiros
apóstolos, e por isso chamado de Símbolo dos Apóstolos.
Eis o texto que
devemos reter e repetir como oração e ato de fé:
CREIO
em
Deus Pai Todo Poderoso, Criador
do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo um só seu Filho,
do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo um só seu Filho,
Nosso
Senhor
o qual foi concebido pelo do Espírito Santo,
nasceu de Maria Virgem,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto
o qual foi concebido pelo do Espírito Santo,
nasceu de Maria Virgem,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto
e
sepultado;
desceu aos infernos,
desceu aos infernos,
ao
terceiro dia ressurgiu dos mortos,
subiu aos Céus, está sentado à direita
subiu aos Céus, está sentado à direita
de
Deus Pai Todo Poderoso,
de onde há de vir a julgar os vivos e mortos;
de onde há de vir a julgar os vivos e mortos;
CREIO
no
Espírito Santo,
na Santa Igreja Católica,
na comunhão dos Santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.
na Santa Igreja Católica,
na comunhão dos Santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.
Tentaremos seguir
este roteiro clássico fazendo de vez em quando explorações transversais que nos
levem a apreciar o efeito do dogma na vida moral e na vida da piedade ou da
santificação. Assim procuraremos escapar à rigidez excessiva dos compêndios
clássicos, sem prejuízo da nitidez da doutrina.
Convém ainda aqui
um reparo que assinale bem a diferença entre o enunciado de artigos de fé, ou a
simples exposição, como se costuma fazer nos catecismo, e o tratamento
propriamente teológico. Em ambos os casos temos proposições de fé com o mesmo
objeto, a saber, o dado revelado. O Símbolo dos Apóstolos e um
tratado de Teologia Dogmática (as primeiras partes da Suma Teológica,
por exemplo) afirmam as mesmas verdades, mas dão-lhe tratamento diferente. O Símbolo
apresenta as verdades da fé de um modo meramente expositivo, enquanto o Tratado
ou a Suma trabalha o dado revelado procurando suas conexões vitais, sua
organização em corpo doutrinal. Costumamos dizer que o objeto da Teologia é o dado
revelado enquanto conexo.
Cabe aqui uma
observação sobre os dois métodos principais da elaboração teológica: o
primeiro, exemplificado pela Suma, é o da Teologia Especulativa; o
segundo é o da Teologia Positiva ou Histórica.
Na primeira, a
conexão e a organicidade dos artigos de fé é procurado com especulação
racional: o teólogo especulativo raciocina para obter maior riqueza de conexões
e de conclusões teológicas. E a estrutura elementar desse raciocínio (usando o
esquema silogístico de Aristóteles) é o seguinte:
1 – MAIOR – de fé.
2 – MENOR – de razão.
3 – CONCLUSÃO – conclusão teológica.
Essa conclusão
teológica que parte da premissa de fé e usa a infalibilidade lógica da razão,
pode ser outro artigo de fé revelada (e neste caso temos o lucro de uma
conexão), ou uma verdade não revelada (que pode ser revelável, isto é,
implicitamente revelada ou não) e neste caso temos o lucro de uma explicitação
ou de uma conclusão teológica.
Com este trabalho
de Teologia Especulativa entende-se que possa dilatar-se, para nosso conhecimento,
o campo da dogmática sem que em si mesmo ele rompa a consumação da obra de
Cristo. O dogma não evolui, não muda. A Revelação, como veremos a seguir, está
encerrada. Mas para nós evolui o aprofundamento do depósito Sagrado.
Fonte: Permanência

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