quarta-feira, 20 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - INTRODUÇÃO - PARTE III



4. A SAGRADA DOUTRINA
 
Também neste domínio não saberíamos como começar se não partisse de Deus a iniciativa primeira. Nossa religião repousa sobre esse dado fundamental da iniciativa primeira, sem o qual poderíamos pensar em Deus entre as categorias filosóficas, mas não poderíamos conhecê-lo como Amigo íntimo. Para isto foi preciso que Ele tivesse, repetidamente, a iniciativa primeira. Essa primeira descida de Deus, autor da Fé, se faz de dois modos: no princípio exterior consubstanciado na Revelação; e pelo princípio exterior da Graça. Mais adiante voltaremos a este binômio; no momento basta-nos imaginar que Deus nos deu uma notícia exterior, que se acha compendiada na Sagrada Escritura e na Tradição, e logo nos deu, no mais íntimo de nossa inteligência, a capacidade de adivinhar o divino da Revelação e de crer nele de todo o coração.
 
Posto o problema nestes termos temos a mesma dificuldade anteriormente apontada no curso de Filosofia. Como começar o estudo da Sagrada Doutrina? Que itinerário seguir?
 
Nossa religião é um universo espiritual imenso, e um imenso universo cultural. Podemos passar a vida inteira estudando o cristianismo, sua doutrina, seu culto, sua liturgia, suas fontes, e mais as repercussões históricas e culturais de seus vinte séculos de civilização, de Tradição, de estudo de arte, sem lograrmos saber uma pequenina fração do que já foi pensado e dito em torno do mesmo tema central aparentemente tão pobre: um homem galileu foi crucificado, morto e sepultado, sob Pôncio Pilatos.
 
De todas as linhas possíveis, podemos destacar três linhas principais, três roteiros bem demarcados por Aquele mesmo que teve a primeira iniciativa de tal instrução. Estes três roteiros correspondem a um método clássico que está muito longe de ter dado os últimos frutos, como pretendem os modernistas.
 
São os seguintes:
 
Teologia Dogmática
Conhecimento dos artigos de fé.
“Creio em Deus Pai todo poderoso”.
 
Teologia Moral
Conhecimento da Vontade de Deus.
Dez mandamentos. “Seja feita a sua vontade...”.
 
Teologia Ascética e Mística
Conhecimento dos apelos de Deus à vida de perfeição:
“Sede perfeitos como Vosso Pai celestial é perfeito”. 
        
Estudaremos aqui a primeira linha, ou seja, a Teologia Dogmática. O roteiro nos é dado por este pequenino e maravilhoso compêndio de fé, que é atribuído aos primeiros apóstolos, e por isso chamado de Símbolo dos Apóstolos.
 
Eis o texto que devemos reter e repetir como oração e ato de fé:
 
CREIO
em Deus Pai Todo Poderoso, Criador
do Céu e da Terra;
e em Jesus Cristo um só seu Filho,
Nosso Senhor
o qual foi concebido pelo do Espírito Santo,
nasceu de Maria Virgem,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto
e sepultado;
desceu aos infernos,
ao terceiro dia ressurgiu dos mortos,
subiu aos Céus, está sentado à direita
de Deus Pai Todo Poderoso,
de onde há de vir a julgar os vivos e mortos;

CREIO
no Espírito Santo,
na Santa Igreja Católica,
na comunhão dos Santos,
na remissão dos pecados,
na ressurreição da carne,
na vida eterna.
 
Tentaremos seguir este roteiro clássico fazendo de vez em quando explorações transversais que nos levem a apreciar o efeito do dogma na vida moral e na vida da piedade ou da santificação. Assim procuraremos escapar à rigidez excessiva dos compêndios clássicos, sem prejuízo da nitidez da doutrina.
 
Convém ainda aqui um reparo que assinale bem a diferença entre o enunciado de artigos de fé, ou a simples exposição, como se costuma fazer nos catecismo, e o tratamento propriamente teológico. Em ambos os casos temos proposições de fé com o mesmo objeto, a saber, o dado revelado. O Símbolo dos Apóstolos e um tratado de Teologia Dogmática (as primeiras partes da Suma Teológica, por exemplo) afirmam as mesmas verdades, mas dão-lhe tratamento diferente. O Símbolo apresenta as verdades da fé de um modo meramente expositivo, enquanto o Tratado ou a Suma trabalha o dado revelado procurando suas conexões vitais, sua organização em corpo doutrinal. Costumamos dizer que o objeto da Teologia é o dado revelado enquanto conexo.
 
Cabe aqui uma observação sobre os dois métodos principais da elaboração teológica: o primeiro, exemplificado pela Suma, é o da Teologia Especulativa; o segundo é o da Teologia Positiva ou Histórica.
 
Na primeira, a conexão e a organicidade dos artigos de fé é procurado com especulação racional: o teólogo especulativo raciocina para obter maior riqueza de conexões e de conclusões teológicas. E a estrutura elementar desse raciocínio (usando o esquema silogístico de Aristóteles) é o seguinte:
 
1 – MAIOR – de fé.
2 – MENOR – de razão.
3 – CONCLUSÃO – conclusão teológica.
 
Essa conclusão teológica que parte da premissa de fé e usa a infalibilidade lógica da razão, pode ser outro artigo de fé revelada (e neste caso temos o lucro de uma conexão), ou uma verdade não revelada (que pode ser revelável, isto é, implicitamente revelada ou não) e neste caso temos o lucro de uma explicitação ou de uma conclusão teológica.
 
Com este trabalho de Teologia Especulativa entende-se que possa dilatar-se, para nosso conhecimento, o campo da dogmática sem que em si mesmo ele rompa a consumação da obra de Cristo. O dogma não evolui, não muda. A Revelação, como veremos a seguir, está encerrada. Mas para nós evolui o aprofundamento do depósito Sagrado.
 
Na Teologia Positiva ou Histórica, que expõe a Doutrina ao sabor da História Sagrada, a conexão é menos lógica, menos clara, mas mais sugestiva e vital. Para a catequese infantil parece-nos melhor a perspectiva da Teologia Positiva; para o estudo mais profundo e mais sólido parece-nos melhor o itinerário da Teologia Especulativa.

Fonte: Permanência

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