Convém
distinguirmos bem essas duas castas do saber. Há um saber que tem por objeto os
fenômenos, as causas próximas ou as correlações, as medidas e as relações entre
elas. Temos assim a física, a química, a biologia, a matemática, e as várias
outras ciências chamadas empíricas (fundadas na experiência) ou também
positivas. O erro do positivismo de Augusto Comte consistiu no valor máximo
atribuído a essas ciências em detrimento do valor menor dado à Filosofia e à
Teologia.
Para nós, estas
ciências mais altas, por causa do valor e da dignidade de seus objetos, merecem
o nome de Sabedoria. Versam sobre todas as coisas, mas sob um ângulo mais
profundo do que o das ciências do fenômeno. Tomemos um exemplo — a psicologia.
Com essa mesma denominação, há duas psicologias, a empírica e a racional ou
filosófica. Note-se que o termo empírico, em nossa linguagem filosófica, não
tem o sentido pejorativo da linguagem comum, onde empírico é quase sinônimo de
a-científico. Para nós esse termo designa o conhecimento científico fundado na
observação e na experiência.
A psicologia
empírica ou experimental (ou científica — se quiserem) tem por objeto as
manifestações apreciáveis (empiricamente) das paixões da alma, ou as emoções;
e procura, sem recursos próprios em seus domínios, discernir as manifestações
normais e as anormais. Freqüentemente se enganará, tomando por anormal uma
normalíssima reação motivada, isto sim, por alguma circunstância anormal. O
psicólogo praticante da psicologia experimental, se se fechar aos ensinamentos
de critérios mais altos, quererá chamar de normais as reações mais
encontradiças, e chamará de doente o indivíduo que apresentar sérias
inconformidades com o meio em que vive. Quererá, em suma, e como ideal supremo,
inserir as pessoas nos quadros existentes. Ora, esses quadros podem estar e
freqüentemente estão gravemente deteriorados como tão bem assinala Erich Fromm
em Sane Society.
E como é que
podemos nós saber o que é normal e o que não é? A experiência e a estatística
só nos dizem se tal coisa é ou não é muito encontradiça, mas esse critério não
nos diz decisivamente se tal coisa é normal ou anormal. (Dois Amores e Duas
Cidades. Agir, pág. 72, vol. 2). Para decidir esse ponto temos de recorrer a um
saber mais alto: a psicologia racional que nos diz o que é a alma humana, e a
filosofia moral que nos proporciona os princípios e critérios para a avaliação
dos atos humanos.
A teologia nos
ensinará ainda mais: ela nos dirá como Deus quer ser conhecido e amado, e como
Ele faz questão, zelosamente de ser bem identificado, “não terás outros
deuses diante de minha Face”, (Ex. 20, 3) e bem obedecido. E por aí já se
vê que essas formas de saber são mais decisivas e importantes para o homem do
que todos os conhecimentos que lhe asseguram certo domínio sobre os seres da
natureza inferior. Ai do mundo se os homens quiserem possuir cada vez mais
Ciências a respeito das coisas e cada vez menos Sabedoria da alma e de Deus!
O estudo e
progresso no saber mais alto têm uma dificuldade que é uma facilidade, ou
vice-versa. Expliquemo-nos: A Sabedoria, ao contrário da Ciência do fenômeno, é
um saber global em que o conhecimento de cada parte implica o conhecimento das
outras. Tomemos a Física: podemos estudar a mecânica deixando para ulterior
estudo a Termodinâmica ou a Ótica, sem que essa protelação prejudique a
compreensão da primeira parte. Na matemática, na geometria, por exemplo, o
estudo progride vetorialmente, partindo de definições e postulados, e conquistando
gradativamente novas relações métricas ou novas propriedades das figuras.
Progride-se nestas ciências quando se conhecem mais coisas.
Na Filosofia não
sabemos bem por onde começar. Podemos começar pela Lógica, pressupondo, porém,
algum conhecimento metafísico ou psicológico. Reciprocamente poderíamos começar
pela Metafísica, ou pela Psicologia (racional), pressupondo algum conhecimento
de Lógica. Seria impossível o estudo da Filosofia se de algum modo, embora
imperfeito, não conhecêssemos todos os seus capítulos. Felizmente temos no
senso comum, ou no exercício da razão espontânea, uma primeira elaboração geral
que nos permite a vaga visão do todo quando nos detemos no estudo de uma das
partes. Progride-se nesse saber mais alto não por saber mais coisas, mas
por saber mais a fundo as mesmas coisas. O progresso das ciências empíricas é extensivo;
o da filosofia (e teologia) é intensivo.
Fonte: Permanência

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