terça-feira, 19 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - INTRODUÇÃO - PARTE II



3. CIÊNCIA E SABEDORIA
 
Convém distinguirmos bem essas duas castas do saber. Há um saber que tem por objeto os fenômenos, as causas próximas ou as correlações, as medidas e as relações entre elas. Temos assim a física, a química, a biologia, a matemática, e as várias outras ciências chamadas empíricas (fundadas na experiência) ou também positivas. O erro do positivismo de Augusto Comte consistiu no valor máximo atribuído a essas ciências em detrimento do valor menor dado à Filosofia e à Teologia.
 
Para nós, estas ciências mais altas, por causa do valor e da dignidade de seus objetos, merecem o nome de Sabedoria. Versam sobre todas as coisas, mas sob um ângulo mais profundo do que o das ciências do fenômeno. Tomemos um exemplo — a psicologia. Com essa mesma denominação, há duas psicologias, a empírica e a racional ou filosófica. Note-se que o termo empírico, em nossa linguagem filosófica, não tem o sentido pejorativo da linguagem comum, onde empírico é quase sinônimo de a-científico. Para nós esse termo designa o conhecimento científico fundado na observação e na experiência.
        
A psicologia empírica ou experimental (ou científica — se quiserem) tem por objeto as manifestações apreciáveis (empiricamente) das paixões da alma, ou as emoções; e procura, sem recursos próprios em seus domínios, discernir as manifestações normais e as anormais. Freqüentemente se enganará, tomando por anormal uma normalíssima reação motivada, isto sim, por alguma circunstância anormal. O psicólogo praticante da psicologia experimental, se se fechar aos ensinamentos de critérios mais altos, quererá chamar de normais as reações mais encontradiças, e chamará de doente o indivíduo que apresentar sérias inconformidades com o meio em que vive. Quererá, em suma, e como ideal supremo, inserir as pessoas nos quadros existentes. Ora, esses quadros podem estar e freqüentemente estão gravemente deteriorados como tão bem assinala Erich Fromm em Sane Society.
 
E como é que podemos nós saber o que é normal e o que não é? A experiência e a estatística só nos dizem se tal coisa é ou não é muito encontradiça, mas esse critério não nos diz decisivamente se tal coisa é normal ou anormal. (Dois Amores e Duas Cidades. Agir, pág. 72, vol. 2). Para decidir esse ponto temos de recorrer a um saber mais alto: a psicologia racional que nos diz o que é a alma humana, e a filosofia moral que nos proporciona os princípios e critérios para a avaliação dos atos humanos.
 
A teologia nos ensinará ainda mais: ela nos dirá como Deus quer ser conhecido e amado, e como Ele faz questão, zelosamente de ser bem identificado, “não terás outros deuses diante de minha Face”, (Ex. 20, 3) e bem obedecido. E por aí já se vê que essas formas de saber são mais decisivas e importantes para o homem do que todos os conhecimentos que lhe asseguram certo domínio sobre os seres da natureza inferior. Ai do mundo se os homens quiserem possuir cada vez mais Ciências a respeito das coisas e cada vez menos Sabedoria da alma e de Deus!
 
O estudo e progresso no saber mais alto têm uma dificuldade que é uma facilidade, ou vice-versa. Expliquemo-nos: A Sabedoria, ao contrário da Ciência do fenômeno, é um saber global em que o conhecimento de cada parte implica o conhecimento das outras. Tomemos a Física: podemos estudar a mecânica deixando para ulterior estudo a Termodinâmica ou a Ótica, sem que essa protelação prejudique a compreensão da primeira parte. Na matemática, na geometria, por exemplo, o estudo progride vetorialmente, partindo de definições e postulados, e conquistando gradativamente novas relações métricas ou novas propriedades das figuras. Progride-se nestas ciências quando se conhecem mais coisas.
 
Na Filosofia não sabemos bem por onde começar. Podemos começar pela Lógica, pressupondo, porém, algum conhecimento metafísico ou psicológico. Reciprocamente poderíamos começar pela Metafísica, ou pela Psicologia (racional), pressupondo algum conhecimento de Lógica. Seria impossível o estudo da Filosofia se de algum modo, embora imperfeito, não conhecêssemos todos os seus capítulos. Felizmente temos no senso comum, ou no exercício da razão espontânea, uma primeira elaboração geral que nos permite a vaga visão do todo quando nos detemos no estudo de uma das partes. Progride-se nesse saber mais alto não por saber mais coisas, mas por saber mais a fundo as mesmas coisas. O progresso das ciências empíricas é extensivo; o da filosofia (e teologia) é intensivo.
 
Nas ciências físicas também existe certa interdependência entre as várias partes, mas essa globalização vem mais das “Teorias interpretativas” do que da experiência; e assim sendo eu diria que a dita globalização vem do teor filosófico (Filosofia da Natureza) que existe em todas as teorias interpretativas.

Fonte: Permanência

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