terça-feira, 26 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO II - EM DEUS PAI TODO PODEROSO²

3. AS CINCO VIAS
 
A exposição das famosas cinco vias da demonstração metafísica da existência de Deus, desenvolvidas dentro da corrente aristotélico-tomista, (ver Santo Tomás, Suma Teológica, I, Q. 2 a 3) envolve dificuldades e terminologia filosófica que exige preparação prévia.
 
Tentaremos resumir e simplificar:
 
PRIMEIRA VIA
 
Partimos do fato universalmente observado: tudo se move. Entenda-se aqui o verbo mover não apenas no sentido de deslocamento, mas também no amplo sentido de mudança qualquer. Tudo se move: ora, tudo o que se move, por outro é movido. Com efeito, nada se move por aquilo que está em potência para o movimento que produz, e sim pelo que está em ato, porque mover é fazer alguma coisa passar de potência ao ato, e nada pode passar da potência ao ato a não ser por algo que já esteja em ato.
 
Lembremos aqui a divisão aristotélica de importância capital: todos os seres (criados) são compostos de potência e ato, isto é, são já plenamente o que são (em ato), e serão eventualmente o que podem ser (em potência). Ora, se admitíssemos que cada ser pode por si mesmo, e em cada linha de potência-ato, passar da possibilidade à plenitude, não existiria tal divisão, e tudo seria por si mesmo tudo o que pode ser. E então tudo seria, considerado sob o mesmo ângulo, ao mesmo tempo em potência e em ato, o que é absurdo. E então, para mover-se, o móvel precisa de um motor, o qual, por sua vez, sendo também composto de potência e ato, é movido por outro, e este por outro ainda, e assim por diante. O inteiro universo, no espaço e no tempo, é um encadeamento de coisas movidas umas pelas outras. Diríamos que é um jogo de empurra indefinidamente prolongado. Mas esse prolongamento, esse recurso ao infinito não explica o movimento de todos os seres compostos de potência e ato: impõe-se à razão a existência de algo que mova sem necessidade de ser movido. Tal ser, Motor imóvel, ou Ato-puro, é aquele supremo Ser a que damos o nome de Deus.
 
Para tornar mais acessível o itinerário desta demonstração e a invalidez do recurso ao infinito número de elos, imaginemos um comboio de trem de ferro em que cada carro é empurrado, e não se vê em nenhum a razão do próprio movimento. Claro é que tanto faz considerar 40 ou 4.000 carros, se nenhum deles tem o princípio do motor. Mas não se julgue, nesta imagem, que uma locomotiva explicaria cabalmente o movimento mecânico dos vagões sem necessidade de explicar o próprio. Longe de ser o motor capaz por si mesmo de explicar o movimento dos vagões, a locomotiva por sua vez é empurrada pelo mecanismo de transformação de energia térmica em mecânica, o qual, por sua vez foi empurrado por uma série de fenômenos químicos, térmicos e mecânicos na formação do depósito de carvão, da crosta da Terra, etc., etc.
 
Vê-se assim que, pela via da concatenação dos seres compostos em potência e ato chega-se à necessidade de um Ato-puro ou Motor imóvel.
 
SEGUNDA VIA
 
A segunda via, paralela e análoga à primeira, usa a noção de causa eficiente em vez de usar o movimento. Observamos nas coisas sensíveis que existe uma ordem, uma concatenação de causas eficientes. O que não se encontra e o que não nos parece possível é que uma coisa do universo sensível seja causa dela mesma, pois isto nos levaria a supor que ela seria anterior a si mesma, o que é impossível. Mas também não é possível que tal encadeamento remonte ao infinito, porque na série de causas eficientes a primeira é causa das intermediárias, e as intermediárias são causa do último termo, qualquer que seja o número dos intermediários, sejam eles numerosos ou raros.
 
Do outro lado, se suprimirmos a causa suprimiremos os efeitos. Logo, se não existe a primeira, na ordem das causas, não haverá última nem intermediárias. Ora, remontar ao infinito na série de causas equivale a suprimir a primeira: em conseqüência não haveria nem efeito último nem causas intermediárias, o que é evidentemente falso. Necessariamente, então, a razão exige a Causa Primeira, que nós chamamos Deus.
 
TERCEIRA VIA
 
A terceira prova se tira da condição dos seres que são contingentes ou necessários. Existem em todo o universo seres contingentes, isto é, que existem mas poderiam não existir; ou melhor, que não têm em si mesmo a razão de existir. Não podemos conceber um universo de seres puramente de aventura ou acaso, e sem nenhuma conexão de necessidade, como quer uma corrente materialista. A união de um casal humano pode ser fecunda ou estéril, o filho pode nascer e pode não nascer, e o filho que nasce é este e não aquele por um acaso (já que de muitos modos pode o óvulo feminino ser fecundado). Esse filho que nasce mas poderia não nascer é contingente, não tem em si mesmo tudo para por si só existir. Mas se nasceu, necessariamente nasceu de um casal humano; tem então outro sua razão de ser. O universo inteiro, como disse Jacques Maritain, é uma combinação de natura (necessidade) e aventura (contingência). Prendem-se os seres por esses elos de dependência; mas novamente diremos que não se explicaria o universo pelo prolongamento desse encadeado até o infinito.
 
A congênita fraqueza de todos os seres que vemos, como que pendurados, exige a existência de um Ser que em si mesmo tenha sua razão de existir: um ser a-se. E é esse ser que chamamos Deus.
 
QUARTA VIA
 
Esta quarta via procede dos graus de perfeição que se observam as coisas. Vê-se realmente mais ou menos por toda a parte. O universo é hierarquizado e pode-se dizer sem nenhum artifício que a planta tem uma perfeição que os minerais não possuem; que os animais têm no conhecimento sensível uma perfeição que as plantas ignoram; e que o homem tem no conhecimento racional uma perfeição que todo o universo visível não possui. Ora, o mais e o menos se diz das coisas na medida diversa em que se aproximam daquilo que realiza a máxima perfeição. Haverá pois algo que é soberanamente verdadeiro, soberanamente bom, soberanamente nobre e também, por conseqüência, soberanamente ser.
 
Dir-se-á que o escalonamento ascendente de todos os gêneros aponta para a Suprema Perfeição, que nós chamamos Deus.
 
QUINTA VIA
 
A quinta via, diz Santo Tomás, remonta a Deus pelo governo das coisas. Nós vemos que as coisas privadas de conhecimento agem em vista de um fim. Basta observar as plantas e os animais para ver que não agem ao acaso e sim segundo uma tendência que busca o melhor. Consideremos, por exemplo, a astúcia com que as espécies vegetais procuram espalhar as sementes e atirá-las o mais longe possível da sombra materna e mortífera: esta inventa um pára-quedas, para cair devagar e oferecer ao vento maiores oportunidades, aquela inventa uma cápsula explosiva que atira as sementes à distância, sem falar nas árvores que confiam aos pássaros e às abelhas a disseminação que lhes assegura o bem da espécie.
 
Ora, aquilo que está privado de inteligência não pode tender a um fim senão por um agente dotado de inteligência. Haverá então uma Inteligência Suprema governando todas as coisas. E é esse agente governador do mundo que chamamos Deus.
 
4. A FORÇA DE PERSUASÃO DAS CINCO VIAS
 
Bastará a leitura atenta dessas cinco vias para convencer alguém da existência de Deus? Não creio que alguém respondesse afirmativamente a essa pergunta. Nós respondemos: não, sem hesitar. Mas então não demonstram realmente? Respondemos: demonstram, mas não demonstram facilmente para todos, nem, em todos, penetram em toda a profundidade da alma de modo a produzir um abalo em todas as raízes da inteligência, da vontade e do afeto.
 
Não creio que a exposição de uma dessas vias demonstrativas da existência de Deus pudesse converter um descrente: de início ele não está habituado a se mover bem entre os princípios metafísicos aí implicados; além disso, dada a obnubilação da inteligência trazida pelo pecado original, e dada a abstração mental trazida pela confusão cultural do mundo, sem falar nos “interesses” afetivos mobilizados pela perigosa aproximação de uma verdade cheia de conseqüências, o valor demonstrativo do raciocínio não chega a conquistar a atenção profunda e vital do espírito prisioneiro. Menos controvertido me parece o valor dessas demonstrações metafísicas para o homem de Fé. Elas não trarão um acréscimo de Fé divina, mas trarão harmonia entre a Fé e a inteligência que destarte se vê envolvida, e como que levada à homenagem devida às coisas da Fé. Para nós, que mal ou bem já vivemos as verdades reveladas, é bom sabermos até onde alcança a razão e até onde devem nossas faculdades naturais se elevar na procura de uma visão melhor de tudo à luz da idéia de Deus. Dissemos que o tratamento filosófico da existência de Deus harmoniza a vida interior do crente; acrescentamos agora que dignifica sua inteligência. Sem algum estudo filosófico, sem alguma especulação teológica (sempre feita com instrumental filosófico) ficaríamos, para a vida da Fé, na situação dos imaturos. Essa situação não é boa para a salvaguarda da Fé. Nos dias que correm encontramos muitos homens que ocuparam a inteligência com toda a sorte de conhecimentos exigidos por suas profissões, mas conservaram-se infantis no catecismo de que só conhecem rudimentos memorizados. Na primeira volta do caminho da vida largarão a bagagem que lhe parece ser mera lembrança de coisas idas e vividas, que os anos não trazem mais. 

Fonte: Permanência

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