3. AS CINCO VIAS
A exposição das
famosas cinco vias da demonstração metafísica da existência de Deus,
desenvolvidas dentro da corrente aristotélico-tomista, (ver Santo Tomás, Suma
Teológica, I, Q. 2 a 3) envolve dificuldades e terminologia filosófica que
exige preparação prévia.
Tentaremos resumir
e simplificar:
PRIMEIRA VIA
Partimos do fato
universalmente observado: tudo se move. Entenda-se aqui o verbo mover não
apenas no sentido de deslocamento, mas também no amplo sentido de mudança
qualquer. Tudo se move: ora, tudo o que se move, por outro é movido. Com
efeito, nada se move por aquilo que está em potência para o movimento que
produz, e sim pelo que está em ato, porque mover é fazer alguma coisa
passar de potência ao ato, e nada pode passar da potência
ao ato a não ser por algo que já esteja em ato.
Lembremos aqui a
divisão aristotélica de importância capital: todos os seres (criados) são
compostos de potência e ato, isto é, são já plenamente o que são
(em ato), e serão eventualmente o que podem ser (em potência). Ora, se
admitíssemos que cada ser pode por si mesmo, e em cada linha de potência-ato,
passar da possibilidade à plenitude, não existiria tal divisão, e tudo seria
por si mesmo tudo o que pode ser. E então tudo seria, considerado sob o mesmo
ângulo, ao mesmo tempo em potência e em ato, o que é absurdo. E então, para
mover-se, o móvel precisa de um motor, o qual, por sua vez, sendo também
composto de potência e ato, é movido por outro, e este por outro ainda, e assim
por diante. O inteiro universo, no espaço e no tempo, é um encadeamento de
coisas movidas umas pelas outras. Diríamos que é um jogo de empurra indefinidamente
prolongado. Mas esse prolongamento, esse recurso ao infinito não explica o
movimento de todos os seres compostos de potência e ato: impõe-se à razão a
existência de algo que mova sem necessidade de ser movido. Tal ser, Motor
imóvel, ou Ato-puro, é aquele supremo Ser a que damos o nome de Deus.
Para tornar mais
acessível o itinerário desta demonstração e a invalidez do recurso ao infinito
número de elos, imaginemos um comboio de trem de ferro em que cada carro é
empurrado, e não se vê em nenhum a razão do próprio movimento. Claro é que
tanto faz considerar 40 ou 4.000 carros, se nenhum deles tem o princípio do
motor. Mas não se julgue, nesta imagem, que uma locomotiva explicaria
cabalmente o movimento mecânico dos vagões sem necessidade de explicar o
próprio. Longe de ser o motor capaz por si mesmo de explicar o movimento dos
vagões, a locomotiva por sua vez é empurrada pelo mecanismo de transformação de
energia térmica em mecânica, o qual, por sua vez foi empurrado por uma série de
fenômenos químicos, térmicos e mecânicos na formação do depósito de carvão, da
crosta da Terra, etc., etc.
Vê-se assim que,
pela via da concatenação dos seres compostos em potência e ato chega-se à
necessidade de um Ato-puro ou Motor imóvel.
SEGUNDA VIA
A segunda via,
paralela e análoga à primeira, usa a noção de causa eficiente em vez de usar o
movimento. Observamos nas coisas sensíveis que existe uma ordem, uma
concatenação de causas eficientes. O que não se encontra e o que não nos parece
possível é que uma coisa do universo sensível seja causa dela mesma, pois isto
nos levaria a supor que ela seria anterior a si mesma, o que é impossível. Mas
também não é possível que tal encadeamento remonte ao infinito, porque na série
de causas eficientes a primeira é causa das intermediárias, e as intermediárias
são causa do último termo, qualquer que seja o número dos intermediários, sejam
eles numerosos ou raros.
Do outro lado, se
suprimirmos a causa suprimiremos os efeitos. Logo, se não existe a primeira, na
ordem das causas, não haverá última nem intermediárias. Ora, remontar ao
infinito na série de causas equivale a suprimir a primeira: em conseqüência não
haveria nem efeito último nem causas intermediárias, o que é evidentemente
falso. Necessariamente, então, a razão exige a Causa Primeira, que nós chamamos
Deus.
TERCEIRA VIA
A terceira prova se
tira da condição dos seres que são contingentes ou necessários.
Existem em todo o universo seres contingentes, isto é, que existem mas poderiam
não existir; ou melhor, que não têm em si mesmo a razão de existir. Não podemos
conceber um universo de seres puramente de aventura ou acaso, e sem nenhuma
conexão de necessidade, como quer uma corrente materialista. A união de um
casal humano pode ser fecunda ou estéril, o filho pode nascer e pode não
nascer, e o filho que nasce é este e não aquele por um acaso (já que de muitos
modos pode o óvulo feminino ser fecundado). Esse filho que nasce mas poderia
não nascer é contingente, não tem em si mesmo tudo para por si só existir.
Mas se nasceu, necessariamente nasceu de um casal humano; tem então outro sua
razão de ser. O universo inteiro, como disse Jacques Maritain, é uma combinação
de natura (necessidade) e aventura (contingência). Prendem-se os seres por
esses elos de dependência; mas novamente diremos que não se explicaria o
universo pelo prolongamento desse encadeado até o infinito.
A congênita
fraqueza de todos os seres que vemos, como que pendurados, exige a existência
de um Ser que em si mesmo tenha sua razão de existir: um ser a-se. E é
esse ser que chamamos Deus.
QUARTA VIA
Esta quarta via
procede dos graus de perfeição que se observam as coisas. Vê-se realmente mais
ou menos por toda a parte. O universo é hierarquizado e pode-se dizer sem
nenhum artifício que a planta tem uma perfeição que os minerais não possuem;
que os animais têm no conhecimento sensível uma perfeição que as plantas
ignoram; e que o homem tem no conhecimento racional uma perfeição que todo o
universo visível não possui. Ora, o mais e o menos se diz das coisas na medida
diversa em que se aproximam daquilo que realiza a máxima perfeição. Haverá pois
algo que é soberanamente verdadeiro, soberanamente bom, soberanamente nobre e
também, por conseqüência, soberanamente ser.
Dir-se-á que o
escalonamento ascendente de todos os gêneros aponta para a Suprema
Perfeição, que nós chamamos Deus.
QUINTA VIA
A quinta via, diz
Santo Tomás, remonta a Deus pelo governo das coisas. Nós vemos que as coisas
privadas de conhecimento agem em vista de um fim. Basta observar as plantas e
os animais para ver que não agem ao acaso e sim segundo uma tendência que busca
o melhor. Consideremos, por exemplo, a astúcia com que as espécies vegetais
procuram espalhar as sementes e atirá-las o mais longe possível da sombra
materna e mortífera: esta inventa um pára-quedas, para cair devagar e oferecer
ao vento maiores oportunidades, aquela inventa uma cápsula explosiva que atira
as sementes à distância, sem falar nas árvores que confiam aos pássaros e às
abelhas a disseminação que lhes assegura o bem da espécie.
Ora, aquilo que
está privado de inteligência não pode tender a um fim senão por um agente
dotado de inteligência. Haverá então uma Inteligência Suprema governando todas
as coisas. E é esse agente governador do mundo que chamamos Deus.
4. A FORÇA DE
PERSUASÃO DAS CINCO VIAS
Bastará a leitura
atenta dessas cinco vias para convencer alguém da existência de Deus? Não creio
que alguém respondesse afirmativamente a essa pergunta. Nós respondemos: não,
sem hesitar. Mas então não demonstram realmente? Respondemos:
demonstram, mas não demonstram facilmente para todos, nem, em todos, penetram
em toda a profundidade da alma de modo a produzir um abalo em todas as raízes
da inteligência, da vontade e do afeto.
Fonte: Permanência

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