segunda-feira, 25 de novembro de 2013

CURSO DE RELIGIÃO - CAPÍTULO II - EM DEUS PAI TODO PODEROSO¹



Capítulo II


... Em Deus Pai Todo Poderoso
 
 
1. O INSTINTO DE DEUS
 
Em todas as épocas, em todas as civilizações e em todos os quadro históricos encontramos sempre no homem, manifestada dos modos mais variados, a obsessiva idéia, a inevitável crença a que daremos aqui o nome de instinto de Deus. Pode-se dizer que o homem sempre se moveu entre duas convicções fundamentais nem sempre, entretanto, bem ajustadas: a primeira lhe dizia que era ele o Rei do mundo visível, com direito e capacidade eficaz de exercer o domínio sobre a natureza inferior; a segunda lhe dizia que ele não era senhor de si mesmo, de sua vida e de sua sorte, e que o próprio domínio exercido sobre a natureza inferior não era pleno e absoluto, ao contrário, pendia de um poder mais alto a que tudo está submetido.
 
Nas civilizações primitivas, onde era frágil o senhorio do homem sobre os elementos da natureza inferior, entende-se bem que tenha sido o temor a principal motivação do instinto de Deus. Assim é que, movidas pela insegurança, essas primitivas civilizações inventaram mil modos de contar com o apoio das misteriosas potências escondidas para os negócios da vida terrestre, e outros mil modos de conjurar as transcendentais irritações sobre-humanas, que explicariam as doenças, as calamidades e a derrota nas armas. Podemos dizer que foi o medo que, primeiro, inventou os deuses? O poeta pagão, materialista, arrogantemente isolado do grande consenso, deixou-nos este escárnio: “primus in orbe deo fecit timor”. Nas civilizações mais apuradas, tomemos a Grécia no seu esplendor, não é o medo do trovão ou dos animais ferozes que leva a mente humana a buscar instâncias mais altas. A tragédia grega nos mostra motivações mais profundas que se traduzem nestes poucos termos: o homem não é senhor de sua sorte. Povoaram os gregos, o céu de deuses intermediários e quase humanos, vistosos e claros, mas atrás deles sentiam a presença de um destino transcendente e até implacável: “moira”; e atrás desse decreto imutável sentiam ou escondiam o ignoto deo, a quem Sócrates quis obedecer.
 
Diremos nós, então, com São João Damasceno que “o conhecimento da existência de Deus é naturalmente infuso em todos os seres”.
 
Concluiríamos nós que é evidente a existência de Deus?
 
Não. A idéia de Deus e de sua existência não é evidente, não é inata, não é universal como a ciência dos primeiros princípios, nem pode ser anterior à experiência como pretenderam os teólogos, como Santo Anselmo, que tentaram a demonstração apriorística da existência de Deus. O que podemos desde já é dizer que Deus se torna visível nos seus efeitos, e que a primeira noção, ingenuamente revestida de uma imagerie que dependerá da cultura dos povos, é um patrimônio universal do senso comum, isto é, das primeiras e mais espontâneas elaborações da razão tiradas da experiência.
 
“Existe o mundo exterior à nossa consciência”.
“O homem se distingue de todos os animais por algo que lhe é específico”.
“Os filhos devem honrar pai e mãe”.
“Existem realidades invisíveis”.
“Deus existe”.
 
Eis aí diversas proposições desse primeiro cabedal de sabedoria, não sistematizado, não integrado em forma de Ciência filosófica, mas já compendiado numa espécie de credo fundamental da razão natural. Nos tópicos seguintes tentaremos resumir o tratamento filosófico desse problema que se inscreve na chamada Teodicéia ou também Teologia Natural, onde veremos que, independentemente da Fé sobrenatural que nos trás um conhecimento mais íntimo de Deus, a simples razão natural já alcança algum conhecimento de Deus, imperfeito mas certo, e até alcança, por vários caminhos, a demonstração de sua existência.
 
Antes de deixarmos este tópico queremos frisar um ponto: os homens que foram levados a crer num ente supremo pelo medo, ou pelo sentimento de desamparo, foram mais sensatos e mais inteligentes do que os outros que deles zombaram. “No princípio foi o medo que fabricou os deuses”, disse o materialista pagão. E daí? Foi efetivamente o medo que motivou, que provocou o despertar de anseios mais altos da alma; e foi efetivamente o estado cultural de cada povo que influiu na paramentação da idéia central. Nada disso, entretanto, a não ser para os tolos, mostra que é falsa a idéia por causa dos sentimentos menores que a provocaram, e por causa da variedade de símbolos de que se revestiram. A própria variedade de manifestações prova a existência de uma idéia comum; e o itinerário que tomam sempre as motivações emocionais prova que está na natureza das coisas, na realidade das coisas, a explicação de tal tendência.
 
Pouco inteligente, muito pouco sensata, será a atitude produzida nos homens por certas correntes da história. Pelo fato de medirem os céus e a terra, e de fabricarem veículos velozes, os homens se esqueceram dos antigos temores e da antiga sabedoria, se viciaram a viver no exíguo pé-direito de suas realizações técnicas e por isso, com prodigiosa insensatez, passaram a dispensar qualquer apelo mais alto, e se puseram de pé na crosta do mundo como se fossem senhores de sua vida e de sua sorte. A eliminação de Deus pelos transistores e naves espaciais é realmente muito menos razoável e inteligente do que a procura de Deus motivada pelo medo e pelo sentimento de dependência.

2. A EXISTÊNCIA DE DEUS
 
A noção adivinhada e rusticamente apresentada pelo senso comum deve ser agora apurada em termos mais rigorosos. Neste tópico, como no anterior, não abordamos ainda o objeto da Fé sobrenatural que é o mesmo Deus dos filósofos, visto em maior profundidade, como só se tornou possível pela Graça e pela Revelação; não falamos de Deus-Trino e sim de Deus-Uno, termo da investigação feita com a razão natural.
 
A Igreja, traduzindo bem a vontade de Deus, não se contenta com a difusão da notícia sobrenatural, vista somente com sobrenaturais recursos; ela defende os direitos da razão e faz questão fechada de concatenar a vida da Fé na vida da inteligência. “Fides quærens intellectus”, dizia Santo Anselmo, tido por iniciador da Escolástica. A Fé procura a inteligência. O Concílio Vaticano I, presidido por Pio IX, e bruscamente dissolvido pela Guerra Franco-Prussiana, decretou um vigoroso anátema contra os que negam à inteligência humana a possibilidade de um conhecimento de Deus e até de uma prova de sua existência.
 
Existem cinco vias, cinco itinerários clássicos para a demonstração metafísica da existência de Deus. Tornemos a dizer que não se trata de demonstrar um artigo de Fé, que, como diz o Apóstolo (Heb. 11, 1): “é a convicção das coisas que não se vêem”, e sim de chegar à certeza da existência de um Ente Supremo, pelos caminhos que o mesmo apóstolo aponta. “As perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis à inteligência por meio de suas obras”. Por onde se vê que os apurados itinerários da demonstração metafísica da existência de Deus partem da experiência, e seguem a mesma direção das primeiras elaborações mais ou menos rústicas do senso comum.

Fonte: Permanência

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