Capítulo
II
...
Em Deus Pai Todo Poderoso
1. O INSTINTO DE
DEUS
Em todas as épocas,
em todas as civilizações e em todos os quadro históricos encontramos sempre no
homem, manifestada dos modos mais variados, a obsessiva idéia, a inevitável
crença a que daremos aqui o nome de instinto de Deus. Pode-se dizer que o homem
sempre se moveu entre duas convicções fundamentais nem sempre, entretanto, bem
ajustadas: a primeira lhe dizia que era ele o Rei do mundo visível, com direito
e capacidade eficaz de exercer o domínio sobre a natureza inferior; a segunda
lhe dizia que ele não era senhor de si mesmo, de sua vida e de sua sorte, e que
o próprio domínio exercido sobre a natureza inferior não era pleno e absoluto,
ao contrário, pendia de um poder mais alto a que tudo está submetido.
Nas civilizações primitivas,
onde era frágil o senhorio do homem sobre os elementos da natureza inferior,
entende-se bem que tenha sido o temor a principal motivação do instinto de
Deus. Assim é que, movidas pela insegurança, essas primitivas civilizações
inventaram mil modos de contar com o apoio das misteriosas potências escondidas
para os negócios da vida terrestre, e outros mil modos de conjurar as
transcendentais irritações sobre-humanas, que explicariam as doenças, as
calamidades e a derrota nas armas. Podemos dizer que foi o medo que, primeiro,
inventou os deuses? O poeta pagão, materialista, arrogantemente isolado do
grande consenso, deixou-nos este escárnio: “primus in orbe deo fecit timor”.
Nas civilizações mais apuradas, tomemos a Grécia no seu esplendor, não é o medo
do trovão ou dos animais ferozes que leva a mente humana a buscar instâncias
mais altas. A tragédia grega nos mostra motivações mais profundas que se
traduzem nestes poucos termos: o homem não é senhor de sua sorte. Povoaram os
gregos, o céu de deuses intermediários e quase humanos, vistosos e claros, mas
atrás deles sentiam a presença de um destino transcendente e até implacável:
“moira”; e atrás desse decreto imutável sentiam ou escondiam o ignoto deo,
a quem Sócrates quis obedecer.
Diremos nós, então,
com São João Damasceno que “o conhecimento da existência de Deus é naturalmente
infuso em todos os seres”.
Concluiríamos nós
que é evidente a existência de Deus?
Não. A idéia de
Deus e de sua existência não é evidente, não é inata, não é universal como a
ciência dos primeiros princípios, nem pode ser anterior à experiência como
pretenderam os teólogos, como Santo Anselmo, que tentaram a demonstração
apriorística da existência de Deus. O que podemos desde já é dizer que Deus se
torna visível nos seus efeitos, e que a primeira noção, ingenuamente revestida
de uma imagerie que dependerá da cultura dos povos, é um patrimônio
universal do senso comum, isto é, das primeiras e mais espontâneas
elaborações da razão tiradas da experiência.
“Existe o mundo exterior à nossa
consciência”.
“O homem se distingue de todos os animais
por algo que lhe é específico”.
“Os filhos devem honrar pai e mãe”.
“Existem realidades invisíveis”.
“Deus existe”.
Eis aí diversas
proposições desse primeiro cabedal de sabedoria, não sistematizado, não
integrado em forma de Ciência filosófica, mas já compendiado numa espécie de
credo fundamental da razão natural. Nos tópicos seguintes tentaremos resumir o
tratamento filosófico desse problema que se inscreve na chamada Teodicéia
ou também Teologia Natural, onde veremos que, independentemente da Fé
sobrenatural que nos trás um conhecimento mais íntimo de Deus, a simples razão
natural já alcança algum conhecimento de Deus, imperfeito mas certo, e até
alcança, por vários caminhos, a demonstração de sua existência.
Antes de deixarmos
este tópico queremos frisar um ponto: os homens que foram levados a crer num
ente supremo pelo medo, ou pelo sentimento de desamparo, foram mais sensatos e
mais inteligentes do que os outros que deles zombaram. “No princípio foi o medo
que fabricou os deuses”, disse o materialista pagão. E daí? Foi efetivamente o
medo que motivou, que provocou o despertar de anseios mais altos da alma; e foi
efetivamente o estado cultural de cada povo que influiu na paramentação da
idéia central. Nada disso, entretanto, a não ser para os tolos, mostra que é
falsa a idéia por causa dos sentimentos menores que a provocaram, e por causa
da variedade de símbolos de que se revestiram. A própria variedade de
manifestações prova a existência de uma idéia comum; e o itinerário que tomam
sempre as motivações emocionais prova que está na natureza das coisas, na realidade
das coisas, a explicação de tal tendência.
Pouco inteligente,
muito pouco sensata, será a atitude produzida nos homens por certas correntes
da história. Pelo fato de medirem os céus e a terra, e de fabricarem veículos
velozes, os homens se esqueceram dos antigos temores e da antiga sabedoria, se
viciaram a viver no exíguo pé-direito de suas realizações técnicas e por isso,
com prodigiosa insensatez, passaram a dispensar qualquer apelo mais alto, e se
puseram de pé na crosta do mundo como se fossem senhores de sua vida e de sua
sorte. A eliminação de Deus pelos transistores e naves espaciais é realmente
muito menos razoável e inteligente do que a procura de Deus motivada pelo medo
e pelo sentimento de dependência.
2. A EXISTÊNCIA DE
DEUS
A noção adivinhada
e rusticamente apresentada pelo senso comum deve ser agora apurada em termos
mais rigorosos. Neste tópico, como no anterior, não abordamos ainda o objeto da
Fé sobrenatural que é o mesmo Deus dos filósofos, visto em maior profundidade,
como só se tornou possível pela Graça e pela Revelação; não falamos de
Deus-Trino e sim de Deus-Uno, termo da investigação feita com a razão natural.
A Igreja,
traduzindo bem a vontade de Deus, não se contenta com a difusão da notícia
sobrenatural, vista somente com sobrenaturais recursos; ela defende os direitos
da razão e faz questão fechada de concatenar a vida da Fé na vida da
inteligência. “Fides quærens intellectus”, dizia Santo Anselmo, tido por
iniciador da Escolástica. A Fé procura a inteligência. O Concílio
Vaticano I, presidido por Pio IX, e bruscamente dissolvido pela Guerra
Franco-Prussiana, decretou um vigoroso anátema contra os que negam à
inteligência humana a possibilidade de um conhecimento de Deus e até de uma
prova de sua existência.
Fonte: Permanência

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